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A contribuição de Gramsci na visão de Carpeaux

A obra de Carpeaux consiste num verdadeiro repositório histórico da literatura ocidental (poesia, teatro, epopeia, romance, conto), a partir da antiguidade greco-romana até o vanguardismo do século XX. Deveria servir de guia nas pesquisas dos professores da língua portuguesa interessados em dar ao conhecimento o sentido da cultura e do contexto histórico no qual a literatura se insere.


Para apontar uma das contribuições desse crítico literário na obra referida, transcrevemos aqui um trecho relativo a Gramsci extraído do último volume, por indicação de Lincoln Secco (Gramsci no Brasil, pp 183-4. Posfácio a Gramsci em Quadrinhos. São Paulo: Veneta, 2019).


Todo esforço do proletariado industrial europeu, no tempo da “belle époque” de 1900 até 1910, estava dedicado à superação do anarquismo: para fazer os operários bem organizados participar da prosperidade capitalista daquele tempo. Eis o sentido político do reformismo social-democrático que renunciou tacitamente à revolução prevista pelo marxismo, preferindo a elevação do padrão de vida pela ação dos sindicatos. Nesse sentido descreveram o dinamarquês Andersen-Nexö e o norueguês Uppdal as grandes greves e as vitórias eleitorais dos partidos social-democráticos. Os sucessos foram notáveis; pareciam justificar o otimismo. Mas a Primeira Guerra Mundial e as crises econômicas de 1921 e 1929 acabaram com aquelas esperanças: os sindicatos foram enfraquecidos pelo desemprego; e em vários países sucumbiram os partidos socialistas ao fascismo. O proletariado europeu – e, depois da crise de 1929, também o proletariado norte-americano – recaíram para a condição de “pobres” da era pré-marxista ou dos “marginais” dos países coloniais e semicoloniais. Testemunhos literários dessa nova situação são: a novela Karl und Anna, de Leonhard Frank, talvez a primeira obra de literatura proletária na qual nem se focalizam as condições sociais nem a vida particular da família pobre, mas as relações inexoráveis entre aquelas e esta (por isso, o crítico inglês Empson concedeu a essa obra a primazia em toda a literatura proletária européia).


Faltava nesse coro de “vozes do Inferno” a do proletariado italiano: estava silenciada nos cárceres do fascismo. Antonio Gramsci1, jovem intelectual e inicialmente discípulo de Croce, editor do primeiro jornal comunista italiano, Ordine Nuovo, organizador da ocupação das fábricas pelos operários de Turim, passou 11 anos de sua curta vida na prisão, condenado para, como se exprimiu um dos seus juízes, “destruir esse cérebro perigoso”. Só o soltaram quando já agonizava. Não alcançaram aquele intuito. Na prisão, em circunstâncias terríveis, escreveu Gramsci as copiosas notas sobre a filosofia de Croce e o materialismo histórico, sobre a organização da cultura e o papel dos intelectuais – além das profundamente comoventes Lettere dal Carcere à sua família – que forneceriam, publicadas postumamente depois da libertação em 1945, as armas ideológicas ao comunismo italiano. Pra além do valor daquelas cartas, ocupa Gramsci lugar eminente na literatura contemporânea: inspirou parte da literatura italiana do pós-guerra; e demonstrou, pela lição e pelo exemplo, o que poderia e deveria ser a literatura proletária em tempos de crise, guerra e reconstrução da sociedade. Se o seu exemplo fosse seguido, teria saído algo como um neo-realismo socialista. Em vez disso, surgiu na Itália o próprio neo-realismo, ao passo que na Rússia foi imposto o “realismo socialista”.


(Carpeux. História da literatura ocidental, vol IV, pp 2765-2766)


Palmiro Togliatti, o legatário dos escritos realizados por Gramsci durante seu cárcere (1926 -1937), promoveu sua edição por grandes temas (Maquiavel, o Estado e a política moderna etc.). Se, conforme afirma Lincoln Secco, permitiu uma leitura militante, estabeleceu uma direção concorde à “via nacional para o socialismo”, nos termos da linha soviética na qual se enquadrou o PCI – e, acrescentemos, fora de qualquer perspectiva revolucionária. Assim foram inicialmente publicados no Brasil.




1 Antonio Gramsci, 1891-1937. Lettere dal Carcere (1947); Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce (1948); Gli intelettuali e l’organizzazione della cultura (1948); Letteratura e vita nazionale (1950). P. Togliatti, A. Amoretti e outros: Gramsci. 2.ª ed., Roma, 1945. B. Croce: “Antonio Gramsci”. (In: Quaderni della Critica, III/8, 1947, e IV/10, 1948.) L. Repaci: Ricordo di Gramsci. Roma, 1948.


Imagem de capa: Retrato de Gramsci. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Antonio_Gramsci

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