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O movimento operário em Contagem,1968 - Uma análise crítica (parte 1)

A nossa comemoração do 1 de Maio de 2024, dia internacional de luta dos trabalhadores em todo o mundo, está voltada para resgatar a breve e radical luta dos operários de Contagem, ocorrida entre 16 e 26 de abril de 1968. Procuramos destacar como a massa operária, não encontrando no sindicato uma organização para a luta, abre caminho para o enfrentamento do capital com base na sua experiência e no limite de suas próprias forças.


Na literatura das ciências sociais sobre a greve (Weffort; Grossi; Neves) faz-se referência ao tema da espontaneidade da greve de 1968, concomitantemente à atuação do sindicato dos metalúrgicos e das organizações de esquerda, atuantes nas fábricas e bairros operários (principalmente Ação Popular, Política Operária, Colina, Corrente), naquele momento. 


Apesar dos dirigentes sindicais e dos grupos de esquerda que atuaram intensamente na preparação e desenvolvimento da greve, o caráter espontâneo do movimento é relativamente consensual na literatura e mesmo nas avaliações das esquerdas, a posteriori dos fatos. Admitir a espontaneidade significa dizer que a prolongada paralisação não foi conduzida pelo sindicato, e sim pela massa, por meio das lideranças operárias emergentes no movimento. Representou o auge da luta de classes: influenciou a greve de Osasco, pôs em questão a legislação contra a greve e a política salarial da ditadura militar, enfrentando o regime na medida de suas possibilidades.


Partimos do pressuposto de que os fatos “retém suas próprias luzes”, propiciando o retorno de um tempo supostamente perdido (Victor Meyer). Suposto, porque, ao esbarrar nos limites impostos por um sindicato que sofrera intervenção no ano anterior e, portanto, não era um sindicato livre, o movimento viu-se obrigado à impulsionar a organização de base e coordenar a ação da greve envolvendo diversas fábricas sem contar a estrutura sindical.


Essa experiência, aliás, voltou a se expressar mais recentemente na greve da Companhia Siderúrgica Nacional, em 2022, deixando patente o caráter irredutível da exploração da força de trabalho pelo capital e a necessidade de entender a superação do atrelamento sindical e da lei de greve como uma luta política, de classe, a ser desenvolvida pelos próprios operários.


Em Nove Teses (1975), Ernesto Martins aponta o desafio de entender a primeira greve importante após o golpe militar: “Contagem, sem dúvida, representou o auge da luta de classes da época e seus ensinamentos nunca foram aproveitados devidamente.” Sem pretender fazer aqui uma “história da greve” e tampouco dar conta de extrair seus ensinamentos de modo sistemático, queremos pôr em relevo o entendimento de que a espontaneidade do movimento de Contagem constitui uma forma de aprendizagem na luta - e não apenas expressão de uma revolta contra a exploração capitalista e de políticas como a do arrocho salarial. Para isso, recorremos principalmente à contribuição de Francisco Carlos Weffort e de textos da Política Operária publicados na época.


Por razões relacionadas ao tamanho do arquivo e atenção para leitura, a presente publicação será dividida em três partes: na primeira apresenta-se a narrativa da primeira greve de Contagem (abril de 1968) tal como foi construída por Weffort; na segunda, reflete-se sobre a questão do espontaneísmo do movimento grevista; na terceira, procura-se mostrar como a Política Operária interpretou os sentidos da greves em termos da perspectiva de luta naquele momento.



A greve de Contagem em abril de 1968:

Os eventos (parte1)

 

De acordo com Francisco C. Weffort [1] a motivação imediata da greve na Cidade Industrial de Contagem (MG), em abril de 1968, está na recusa dos diretores da Belgo Mineira em aceitar o reajuste de 25% pleiteado pelos operários. A greve ocorre num contexto marcado pelo arrocho salarial, mas também por diversas lutas desde a segunda metade do ano de 1967, inclusive a greve na Acesita, com 3.500 operários parados em fevereiro de 1968.


Nada se sabe, até hoje, sobre os detalhes desse processo que contou com uma organização dos operários da trefilaria; [2] são eles que desencadearam a greve.


7:00 horas da manhã: na Belgo Mineira, não acontece a troca de turno dos operários. Os que entram são convidados a participar da greve de ocupação. Weffort fala que o movimento grevista atinge então 1.200 operários.


Os jornais noticiam o movimento sem apontar suas origens. As primeiras declarações do presidente do sindicato dos metalúrgicos também nada dizem a respeito. Declara-se surpreendido: “De fato, ninguém sabia de nada sobre a greve, com exceção das centenas de operários que fizeram a greve.”


Weffort, sem citar fontes, oferece a seguinte descrição do processo da greve:


A greve de abril começou, portanto, fora dos marcos do sindicato. Mais que isso, começou sem qualquer forma de organização. Não obstante sejam muito poucas as informações disponíveis sobre as suas origens, há indícios suficientes para supor que os embriões de organização corporativa que aparecem no movimento foram sempre posteriores aos acontecimentos e apenas buscavam alguma forma de coordená-los. Ao que se sabe, os operários da trefilaria da Belgo-Mineira, donos já de alguma experiência em greves ocorridas antes de 1964, não se conformaram com o pequeno aumento de outubro de 1967 e passaram a pressionar a empresa por um reajuste “fora de época”. [3]



Ainda de acordo com Weffort, após o fracasso da primeira reunião entre os grevistas e os diretores da Cia, o presidente do Sindicato (tratava-se de Antonio Santana) é chamado para mediar o conflito. Esta segunda reunião termina sem acordo. 


Em 17 de abril, a greve continua e a comissão cria um grupo encarregado de manter a disciplina. À tarde, representante da DRT aparece para uma visita aos diretores. O temor de uma invasão policial leva a comissão a criar um grupo voltado para a segurança. Ao final do dia, a paralisação está estruturada em comissões de representação, disciplina e segurança, que permitem a entrada dos trabalhadores do segundo turno, conquistando-os para a greve de ocupação.


No dia 18 de abril, a DRT declara greve ilegal. Diante disso, os operários decidem abandonar a ocupação e dirigem-se ao sindicato. Às 18 horas desse dia, a Polícia Militar ocupa a empresa. A comissão da Belgo-Mineira e a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos assumem a direção de uma a greve que então começa a se alastrar. No dia 19 de abril, nova reunião para discussão do dissídio instaurado pela DRT termina outra vez no impasse. Nesse dia, o movimento grevista recebe a adesão da Sociedade Brasileira de Eletrificação (SBE), com cerca de 500 operários, num processo marcado pela inexperiência e falta de confiança entre si quanto à liderança.


Com a possibilidade da extensão da greve e de sua maior duração, o ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho, apela aos dirigentes sindicais para cessar uma greve que, mencionando boletins da esquerda pregando derrubar o governo e da organização de grupos dos cinco, se mantém à margem da lei. Afirma que irá negociar pessoalmente com o movimento. O que estava em jogo para a ditadura era tanto a ameaça do movimento operário, que passava por cima da lei de greve, como a ruptura da política salarial vigente, ou seja, o arrocho salarial. Contudo, a ditadura militar estava diante de uma situação de fato.


No dia 20 de abril, na chegada do ministro à Belo Horizonte, a greve já abrangia a Mannesmann, com aproximadamente 4.500 empregados paralisados.

Nesse mesmo dia, ocorre a primeira assembleia do movimento grevista (Belgo, SBE e Mannesmann), a qual constitui a Comissão de Greve, designando Ênio Seabra (operário da Mannesmann e dirigente sindical cassado em 1967) como seu presidente.


Na avaliação de Weffort, a Comissão de Greve foi “menos uma direção real que um ponto de referência para a ação dos piquetes.” Segundo o autor, “a criatividade organizatória da greve ficou sempre muito atrás da combatividade espontânea da massa de operários.”


Este é o movimento que confronta o ministro do trabalho, coronel Jarbas Passarinho, sem temer as ameaças do representante da ditadura militar. De fato, a greve, sustentada nos piquetes do pessoal da Belgo-Mineira e da SBE, se amplia até atingir seu ponto alto em 22 de abril. A Comissão se abre para os representantes de todas as empresas paralisadas, num total aproximado de 15 mil operários (Neves, p.133).


A resposta da ditadura veio rapidamente com a ocupação da Cidade Industrial pela Polícia Militar no dia 23 de abril. Com isso, bloqueia-se o único meio de organização do movimento, as assembleias massivas, a distribuição de boletins e os ajuntamentos de rua. De acordo com Weffort,


 Os pequenos embriões nascidos da espontaneidade operária se revelaram demasiado frágeis para mantê-los e as tentativas de articulação feitas pelos sindicatos dos metalúrgicos e dos bancários foram tardias. Embora vitorioso enquanto tinha campo aberto à expressão de sua espontaneidade, o movimento foi condenado ao fracasso desde o momento em que teve de provar sua capacidade de organização. Foi dissolvendo-se aos poucos, a medida em que os operários, agora completamente isolados, foram retornando ao trabalho. [4] Alguns dias depois, a Cidade Industrial já havia restabelecido plenamente suas atividades. Terminara a greve de abril.

 



Notas

[1] Francisco Correia Weffort. Participação e conflito industrial: Contagem e Osasco - 1968. Cadernos CEBRAP, São Paulo,15,1972. O texto está disponível no site  https://bibliotecavirtual.cebrap.org.br/?r=acervos/busca&keyword=weffort


[2] Setor da usina siderúrgica onde se processa transformação de chapas de metal em fios.


[3] Weffort assinala que a reivindicação foi apresentada “fora de época”, quer dizer, à margem da exigência legal de reajustes anuais de acordo com a data-base da categoria metalúrgica. Como a lei admitia antecipação, o patronato ofereceu 10% — proposta recusada pelos operários. No desfecho da greve, o Governo autoriza um abono salarial de 10% sem desconto estendido a todos os trabalhadores brasileiros.


[4] O retorno se deu a partir de 24 de abril. No dia 26, em assembleia no sindicato, os metalúrgicos decidiam encerrar a paralisação (Neves, p.136).





Foto de capa: Metalúrgicos da Belgo-Mineira, MG. Abril de 1968. Apesp/Fundo Última Hora. Apud:IIEP, 2014, p.50.

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