Carta a uma amiga sobre guerra e religião
Em nossa breve conversa sobre os rumos do mundo (que pretensão!), teríamos, inevitavelmente, de falar da destruição do povo palestino por Israel, em nome da aniquilação do inimigo Hamas. O número de vítimas, de mortos, feridos, órfãos e desenraizados não cessa de aumentar tragicamente, verdadeira limpeza étnica, enquanto se delineia, para além das fronteiras atuais, o Grande Israel bíblico, potência regional, subimperialista, temido, aliás por todos os países árabes, até agora coniventes ou temerosos frente a esse poder. Há um consenso cada vez maior, em todas as vertentes de esquerda, a esse respeito. Contudo, silencia-se quando se pensa no sentimento da maioria do povo judeu em aceitar esse massacre sistemático, verdadeiro genocídio. Temor de que a rejeição ao sionismo seja identificada ao antissemitismo? Talvez, em parte. Por outra, para as esquerdas de nossos dias, praticamente socialdemocratas, as religiões não podem ser politicamente abordadas. Esqueceram-se de Marx em “A questão judaica” ou de Rosa Luxemburgo em “O socialismo e as igrejas”, sobretudo por desver a luta de classes impiedosa a atravessar a vida comum.
Desenvolvo a reflexão a seguir sem a intenção de um diálogo teológico, pois não sou, como você, crente.
Recuemos no tempo, antes do sionismo viabilizar-se como movimento político-religioso-militar destinado a restabelecer o antigo reino de Israel (Eretz Israel), mediante a colonização do território ocupado, então, pela população majoritariamente palestina.
Pouco antes do início da II Guerra Mundial, a filósofa e militante católica de esquerda Simone Weil, ao participar de movimentos anticolonialistas e pacifistas, interessou-se, nas palavras de Ecléa Bosi [1], em conhecer a história das religiões. Na leitura do Velho Testamento, indignou-se com a crueldade da ordem de Deus a Saul para perpetrar o extermínio dos amalequitas (Samuel, I; 15) e “a passagem em que o profeta Eliseu fez perecer quarenta e duas crianças (Reis, II, 23-24).”
Qual a necessidade do extermínio ordenado por Javeh, “deus dos exércitos”, naquele longínquo tempo? Para entender, há de se ler os testamentos. Consideremos aqui apenas o caso do extermínio dos amalecitas (ou amalequitas):
1Samuel disse a Saul: ― Eu sou aquele a quem o Senhor enviou para ungi‑lo como rei de Israel, o povo dele; por isso, escute agora a mensagem do Senhor. 2 Assim diz o Senhor dos Exércitos: “Castigarei os amalequitas pelo que fizeram a Israel, barrando‑lhe o caminho quando subia do Egito. 3 Agora vão, ataquem os amalequitas e separem ao Senhor tudo o que lhes pertence para destruição. Não os poupem; matem homens, mulheres, crianças, recém-nascidos, bois, ovelhas, camelos e jumentos.
Mas Saul desobedeceu à ordem divina transmitida por Samuel, cumprindo-a parcialmente ao poupar o rei dos amalequitas e o melhor do rebanho com a pretensão de usá-los para sacrifícios. A resposta de Samuel é direta e clara:
22 A obediência é melhor do que o sacrifício e a submissão é melhor do que a gordura dos carneiros. 23 Pois a rebeldia é como o pecado de feitiçaria; a arrogância, como o mal da idolatria. Assim como você rejeitou a palavra do Senhor, ele o rejeitou como rei. [2]
Obediência absoluta, submissão a ordem desumanas. Simone Weil pergunta:
Somos anátemas quando pensamos que a fonte de onde saiu para Israel a ordem para destruir cidades, massacrar povos e exterminar os prisioneiros e crianças não foi Deus; e ter tomado Deus por autor de uma tal ordem não foi um erro incomparavelmente mais grave que as formas mais baixas de politeísmo e idolatria...? (Pensées sans ordre concernant l'amour de Dieu. Paris, Gallimard, 1962, p.72)
Contudo a filósofa assume tal posição inserida no cristianismo, para o qual Deus se fez representar no Messias com a pretensão universal, em nome de toda a humanidade e não da exclusividade judaica como está no Velho Testamento. E a vinda do Reino de Deus significa a transformação do mundo.
Consideremos aqui, cara amiga, uma interpretação do evangelho de Marcos:
Toda a atividade de Jesus é o anúncio e a concretização da vinda do Reino de Deus (Mc 1,15). E isso se manifesta pela transformação radical das relações humanas: o poder é substituído pelo serviço (campo político), o comércio pela partilha (campo econômico), a alienação pela capacidade de ver e ouvir a realidade (campo ideológico). Trata-se de proposta alternativa de sociedade, que leva ao nivelamento fraterno das pessoas.[3]
Eis uma interessante convergência com o pensamento de Rosa Luxemburgo, na obra acima citada. O cristianismo, na sua expressão inicial, apresentava-se, para ela, na forma de um “comunismo de bens”.
Não será por essa perigosa aproximação e devido a obediência cega à palavra do Deus bíblico que o neopentecostalismo investe no Velho Testamento muito mais do que no Novo e desfralda a bandeira de Israel nas manifestações bolsonaristas, principalmente nas ruas da capital de São Paulo?
Eduardo Stotz 15/09/2025
Notas
[1] BOSI, Ecléa. A condição operária e outros estudos sobre a opressão”, Paz e Terra, 1979. p.43-44
[2] Bíblia Sagrada Online <https://www.bibliaon.com/versiculo/1_samuel_15_1-35/>
[3]<https://biblia.paulus.com.br/biblia-pastoral/novo-testamento/evangelhos/evangelho-segundo-sao-marcos>
Imagem de capa: Manifestantes pró-Bolsonaro em São Paulo Foto: Ansa


