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O movimento operário em Contagem,1968 - Uma análise crítica (parte 2)

A greve de Contagem em abril de 1968:

O espontaneísmo como questão A (parte 2)


Ao que se sabe, escreve Weffort, no Caderno do CEBRAP (1972,) à propósito do início da greve na Belgo-Mineira. Nestas quatro palavras em negrito condensa-se o sentido geral do espontaneísmo do movimento: não há uma versão própria dos operários a respeito. Dispomos dos testemunhos de participantes das diversas organizações da esquerda, apresentados por eles mesmos ou coletados a posteriori por pesquisadores como Francisco Correia Weffort (1937-2021), Yonne Grossi (1932-2023), Magda de Almeida Neves e Edgar Leite de Oliveira. 


Mesmo o papel atribuído às organizações de esquerda na greve pelos que dela fizeram parte deve ser apreciado com cautela. Assim, na comemoração dos 50 anos decorridos da greve, em 2008, Nilmário Miranda, ex-militante da Polop, escreve taxativamente:


A greve na Belgo foi liderada pelo Comando de Libertação Nacional (Colina), organização autodenominada político-militar, que editava o Piquete e era uma dissidência da Política Operária (Polop).” [1]


Vejamos a opinião de Antonio Santana Barcelos, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos e militante do PCB em 1968. Após afirmar que o sindicato inicialmente apoiou a greve sem assumir formalmente a sua direção, porque corria o risco de uma nova intervenção, menciona o papel ativo do pessoal da AP e da Polop no encaminhamento da paralisação:


Na época, quem armou esse movimento grevista de 68 foi o pessoal da  Polop, o pessoal da Política Operária, clandestinos, quase todos eles eram estudantes universitários, na época, eu até coloquei um ou dois, que eram ligados a eles, que ficavam na porta das fábricas. Mas eles se arriscavam demais porque eles não eram metalúrgicos, eram estudantes universitários. De repente, a polícia pegava na porta lá do coisa, ia preso, ia ser torturado, aí,  nós criamos no sindicato, através de opinião da Conceição, a Imaculada, que  era secretária do sindicato, um departamento social de pessoas responsáveis por conseguir documentação pra aposentadoria daqueles operários, que  estavam em condição de se aposentar. Então, ela foi pegando o pessoal da Polop, foi colocando lá, fichando eles como pessoal do sindicato, que aí eles  tinham todo o direito de estar na porta da indústria [risos], procurando o  operário pra conversar, certo? Então, eles aproveitaram e organizaram aquele  movimento. [2]


É pouco provável que esses quadros da “Polop” (na verdade do Colina, dissidência desta organização) tivessem de fato organizado a greve, mas certamente participaram ativamente do processo na medida de suas forças e  possibilidades. Obviamente, Santana precisava destacar sua própria importância, pois a diretoria do sindicato ficou à margem das iniciativas do movimento grevista.

Imaculada Conceição, ex-militante do PCB que fazia parte da Corrente, dissidência comunista alinhada às posições de Marighela, ressalta, em seu testemunho, a relevância da tradição de luta anterior ao golpe de 1964 e discorda de que a greve foi espontânea:


Dizer que a greve foi espontânea é um erro. Existia toda a problemática dos trabalhadores e, por outro lado, a conjuntura política pós 64. Havia um movimento operário em ascensão que foi cortado, mas as lideranças continuavam lá. Ninguém pode afirmar, nem eu mesma, que o dia e a hora da greve não tenham sido marcados por alguma corrente. Eu creio que não, mas todos já trabalhavam para eclodir o movimento grevista. [3]


A controvérsia - tudo indica – continuará, pois é intrínseca a um movimento “espontâneo”.


Os testemunhos constituem registros importantes, porém apresentam mais os dilemas e as expectativas das organizações de esquerda participantes da primeira greve importante de 1968 do que propriamente uma posição de liderança. Esse tipo de fontes pode, contudo, oferecer respostas a questões do tipo: Haviam, de fato, células comunistas na fábrica? Qual foi a sua atuação?


A resistência em admitir um papel ativo, de protagonista ou de sujeito da greve à “massa operária”, inclusive tantas décadas após os fatos, revela uma concepção de luta de classes na qual apenas a vanguarda pode assumir a direção de movimentos.  


Para entender melhor a problemática, vale a pena ler duas cartas escritas por Friedrich Engels a August Bebel no final do século XIX.


A primeira data de junho de 1899 [4]. A segunda, dois anos depois, merece ser aqui transcrita:


A greve de carvão no Ruhr é certamente estranha para você, mas o que acontece? A greve imprudente da paixão raivosa é, como as coisas estão, a forma usual com que grandes novos estratos de trabalhadores são trazidos em nossa direção. Esses fatos me parecem ter sido considerados muito pouco no tratamento de Vorwärts. Liebknecht não conhece sombras, ou é totalmente preto ou totalmente branco; e se ele pensava que tinha o dever de provar ao mundo que nosso partido não incentivou essa greve, e até mesmo a acalmou, então Deus tenha misericórdia dos pobres grevistas - por eles foi demonstrada menos do que a preocupação desejável, para que venham ter conosco em breve. [5]


A carta aos companheiros da CSN, publicada no portal do Centro de estudos Victor Meyer, assume a perspectiva apresentada por Engels na carta acima citada. [6]


A propósito das fontes de Weffort, cabe dizer, ainda, para o esclarecimento da frase “Ao que se sabe”, que talvez tenha sido oriunda da convivência com militantes como Régis de Castro Andrade, do POC, um quadro integrado na produção em Osasco. Dele, temos uma entrevista com importantes pistas para conhecer a forma como se constituíam as fontes de informação naquele período da ditadura.


Uma outra característica das comissões de empresa era que as reuniões eram feitas fora do local de trabalho. Era impossível se reunir na empresa, tava cheio de "dedo-duro", então as reuniões eram feitas em fins-de-semana nas casas. Os sábados e domingos em fins de 67, começo de 68 eram ativíssimos, o pessoal passava o tempo todo se reunindo aqui e ali, as principais lideranças emergentes ali, não necessariamente do POC, mas de qualquer organização, ou mesmo não organizadas, se encontravam em toda parte, iam nos campos de futebol de várzea para tomar cerveja, discutir no bar, e era um trabalho de conscientização, de organização e de estímulo permanente. [7]





Notas

[1]  Contagem: A cidade operária símbolo. ESPECIAL 1968 - 01/05/2008 - Nilmário Miranda. Disponível em https://teoriaedebate.org.br/2008/05/01/contagem-a-cidade-operaria-simbolo/   


[2] Edgar Leite de Oliveira. Conflito social, memória e experiência; as greves dos metalúrgicos de Contagem em 1968. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em  Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, 2010. Disponível em https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/FAED-8DBH4N 


[3] A história contada pelos protagonistas. ESPECIAL 1968 - 01/05/2008 - Andréa Castello Branco, Disponível em https://teoriaedebate.org.br/2008/05/01/a-historia-contada-pelos-protagonistas/ As indicações de militância de Imaculada Conceição encontram-se disponíveis em https://forumverdade.ufpr.br/blog/2013/06/04/anistia-inaugura-monumento-as-vitimas-da-ditadura-e-promove-reparacao/ 



[5] A carta de Engels de 1891 encontra-se disponível em https://www.marxists.org/archive/marx/works/1891/letters/91_05_01.htm 



[7] Trabalho e sindicalismo: memória dos 30 anos do movimento de Osasco. DOSSIÊ MAIO DE 68 - ENTREVISTA. Tempo Social, v. 10, n2, outubro 1998. Disponível em https://www.scielo.br/j/ts/a/NS3k5MbwDZn5rJB97yzGdDf/





Foto de capa: Metalúrgicos da Belgo-Mineira, MG. Abril de 1968. Apesp/Fundo Última Hora. Apud:IIEP, 2014, p.50.

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