top of page

Setembro Amarelo


Olá,


Infelizmente estou com um grande problema. Primeiro algo sobre mim. Sofro de depressão moderada há cerca de 4 anos e de um transtorno de ansiedade generalizada com internações hospitalares etc... Por meio de terapia e outras medidas melhorei nos últimos meses, o que me deu esperança. Ainda tomo antidepressivos. Em 2023 obtive a qualificação para fazer o nível superior, após concluir a Realschule[1]. Infelizmente, não tive capacidade para conseguir o Abitur[2].”


Desde 1º de agosto de 2023, estou treinando para me tornar mecânico de sistemas. Eu vou para a escola duas vezes por semana e estou ocupado nos outros três dias. Eu gosto do meu trabalho e meus colegas são todos muito legais. Mas o que me preocupa é a escola. Infelizmente, sofro de ansiedade escolar (ansiedade em exames, fobia social) de forma extrema. Achei que as coisas tinham melhorado, mas quando voltei para a escola, há duas semanas, não estava me sentindo bem. Já tive inúmeros ataques de pânico e não consigo nem pegar o ônibus sem ter um ataque de pânico. Só tenho contratempos (automutilação etc.) no que diz respeito à minha depressão e, portanto, só durmo. Eu trabalho e vou dormir direto. É como a depressão que tive naquela época, só que pior. Eu não sei o que fazer.


Eu poderia fazer o treinamento, mas então me sentiria absolutamente uma merda, embora não sei se vou sobreviver, porque tudo parece sem sentido para mim de qualquer maneira.


A outra possibilidade seria interromper o treinamento e tirar uma licença médica para me concentrar em mim.


O que você faria?


Também faço terapia há três anos, mas só queria ouvir outras opiniões.


-Roslyn750: 21/08/2023


RE: Depressão e Educação


Olá Roslyn!


Obrigado por sua pergunta! Sua situação parece extremamente angustiante e lamento que você esteja se sentindo mal. Se você tem pensamentos suicidas agudos, você deve definitivamente conversar com seu terapeuta ou entrar em contato com o pronto-socorro psiquiátrico em sua área.


Qualquer pessoa pode ficar doente e isso não deve levar a consequências negativas. (…) Sua saúde mental e física é seu bem mais importante. Por enquanto, concentre-se em melhorar logo e não se preocupe com sua educação. Comentários estúpidos ou pressão da sua empresa não são aceitáveis.


Não há “pausa para treinamento” ou interrupção no sentido literal, mas é claro que você pode tirar licença médica e ficar de fora por enquanto, porque se você está doente, simplesmente está doente. Portanto, você se comportou de maneira perfeitamente correta, cuidando primeiro da sua saúde.


Você também deve saber que, caso esteja de licença médica há muito tempo, seu empregador pode ligar para o serviço médico da seguradora de saúde para verificar o diagnóstico do seu médico. Isso não é assédio ou pressão, é apenas uma rotina normal. Além disso, o médico da companhia de seguros de saúde também está sujeito ao sigilo médico e só pode informar o seu empregador se você está apta ou não para trabalhar.


Eu entendo que isso é ainda mais difícil durante o período de estágio, porque você pode facilmente atrasar seus estudos. Por outro lado, você não "perdeu" tanto tempo e pode recomeçar o treino quando se sentir melhor. Infelizmente, não posso tomar essa decisão por você, mas aconselho que você se cuide. O que também poderia ser uma opção seria fazer seu treinamento em meio período. Porém, isso não resolveria o seu problema com o medo da escola profissionalizante.


A maneira como você se sente em relação ao seu medo afeta mais pessoas do que você pensa. As razões para isso são muito diversas. É compreensível que você se sinta impotente e sobrecarregada. Ainda assim é ótimo que você tenha chegado tão longe, apesar de sua situação difícil! Você pode se orgulhar disso.


Você pode controlar a ansiedade escolar. É importante que você leve seus sentimentos a sério. Você já deu o primeiro passo para a melhoria ao reconhecer o problema. É importante que você procure ajuda profissional. Contate o assistente social da sua escola profissional ou o seu professor de aconselhamento, por exemplo. Eles podem fornecer nomes de lugares onde você pode ir para obter ajuda.


Converse com pessoas em quem você confia sobre seu medo. Também podem ser professores e colegas. Muitas vezes você percebe que não está sozinho e recebe boas dicas. Talvez vocês possam encorajar um ao outro.


Espero que algumas das ideias ajudem você na sua tomada de decisão. Se tiver alguma dúvida sobre a sua formação e as suas opções, também pode contatar o sindicato local.


Como membro do sindicato, você tem direito a aconselhamento jurídico gratuito e assistência jurídica gratuita - portanto, você deve considerar aderir ao seu sindicato se ainda não for membro. Você pode se tornar membro do seu sindicato a qualquer momento. A adesão geralmente custa 1% do salário bruto por mês.


Desejo-lhe tudo de melhor para sua saúde e sua educação - que você se sinta melhor novamente em breve.


Este foi um serviço do seu sindicato!


Atenciosamente


Dr. Estagiário: 23/08/2023


Ps: Por favor, recomende nosso serviço!


(Correspondência publicada originalmente no portal alemão Jugend DGB.


-x-x-x-


A correspondência acima faz parte de um sistema de consulta/resposta online da Juventude da DGB - Deutsche Gerwerkschaftsbund (Confederação Alemã de Sindicatos). A observação do Dr. Estagiário a respeito do medo afetar “mais pessoas do que você pensa” retrata, na realidade, uma situação generalizada de ansiedade dos jovens, resultantes da absoluta precarização do estágio profissional (também na Alemanha!), apontada nos sucessivos relatórios sobre a formação profissional disponibilizados na página da DGB, mas também das pressões do sistema escolar, raiz provável da fobia social de Roslyn em torno do seu desempenho.


A propósito do medo e da ansiedade, destacamos aqui uma outra carta dirigida ao mesmo serviço online, com a reclamação de um jovem estagiário de microempresa de design contra erros de projetos direcionados a clientes, exigindo uma posição do empregador que, por sua vez, respondeu usando os argumentos dos estagiários contra eles próprios:


Os erros constantes já me causaram problemas físicos e até ansiedade quando estou a caminho do trabalho. Entretanto, também tive alguns dias de folga, porque há dias em que não aguento mais. As palestras repetitivas que não alteram o conteúdo são frustrantes e enervantes. A tentativa de conversar sobre o assunto é rejeitada com incompreensão e impaciência, o que me sobrecarrega cada vez mais.


Essa mensagem expressa o clima reinante no campo do estágio profissional nas empresas na Alemanha. A diferença em relação ao Brasil, ressalve-se, consiste em que, se a exploração capitalista é essencialmente a mesma, há recursos legais e apoio sindical (algo praticamente inexistente aqui) para reagir a esta situação do ponto de vista individual. Como sempre, porém, denúncia judicial acarreta restrição futura para estágio em outras empresas.


Publicamos a carta de Roslyn pela coragem de expor uma situação de intenso sofrimento psíquico e emocional que acarreta o risco do suicídio (eu não sei o que fazer, tudo parece sem sentido para mim de qualquer maneira), um problema que está assumindo contornos assustadores no Brasil.


Na notícia “Ministério da Saúde vê aumento preocupante de suicídios de jovens em 5 anos”, de 25 de outubro de 2022, lemos:


Enquanto entre os meninos de 10 a 19 anos a taxa passou de 3,8 para 5,1 (34% a mais) nesse período, entre as meninas cresceu de 1,6 para 2,9 (77% a mais). "Os jovens estão adoecendo porque muitas vezes se sentem solitários, vivem uma cultura do medo, junto a uma cultura nas redes sociais de busca por um ideal", afirma Julieta Jerusalinsky, psicanalista do Instituto Travessias da Infância e professora da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo. "Quando há algo numericamente tão significativo [como as taxas de suicídio], precisamos interrogar o que isso nos diz como um sintoma coletivo", acrescenta ela.


Sintoma coletivo cuja dimensão precisa inclusive considerar que o brutal desemprego (e o desalento associado) afeta sobremaneira os jovens.


Contudo, não é este o enfoque do Ministério da Saúde. Sintomas coletivos são comportamentos de risco ao suicídio. Na definição do Conselho Federal de Medicina, suicídio é um ato deliberado executado pelo próprio indivíduo, no qual se considera o que habitualmente se chama de comportamento suicida, a saber, os pensamentos, os planos e a tentativa de suicídio. Na prevenção, esses comportamentos são estabelecidos como fatores de risco: tentativa prévia de suicídio, doença mental (transtornos psiquiátricos como depressão, transtorno bipolar, alcoolismo e abuso/dependência de outras drogas, transtornos de personalidade e esquizofrenia), desesperança, desespero, desamparo e impulsividade (este sentimento figura como importante fator de risco entre os jovens), eventos adversos na infância e na adolescência, dentre outros. Admite-se a relevância dos “fatores sociais”, atribuídos (com base na obra clássica “O suicídio”, de Emile Durkheim) principalmente aos menores laços sociais dos indivíduos. O sofrimento mental decorrente de tais fatores adversos tem seu contorno definido pela Organização Mundial da Saúde em torno de três sentimentos: intolerável, inescapável e interminável, com uma distorção da realidade percebida e uma avaliação negativa de si. A intervenção do profissional de saúde para lidar com o “comportamento suicida” consiste, na consulta, indagar aos pacientes se eles têm planos para o futuro, se a vida vale a pena ser vivida e se a morte seria bem-vinda se viesse. Outro aspecto ressaltado consiste em prestar atenção à depressão, doença mental mais associada ao suicídio, para a qual existe o tratamento psicoterapêutico e os medicamentos antidepressivos, admitidos como mais eficazes nas depressões moderada e grave, ainda que a psicoterapia seja desejável. [3]


Não fica difícil entender que pouco se está a tratar da pessoa com sua história de vida, ou seja, sua personalidade construída na intersubjetividade das relações sociais vivenciadas (familiares, de vizinhança, de trabalho, políticas), cujo controle escapa à vontade individual, impondo-se pela força dos “mecanismos de mercado” do capitalismo e da intervenção estatal voltada para garanti-los. O indivíduo livre, de vontade soberana, o protótipo burguês do sujeito de direitos ao invés da pessoa. Daí que a identificação de comportamentos suicidas no final das contas seja a culpabilização das vítimas, incapazes de assumir a normalidade socialmente exigida. Como advertia o dramaturgo alemão Bertolt Brecht, fala-se da turbulência das águas caudalosas do rio, mas não das margens que o aprisionam.


Precisamos, contudo, nos indagar: o que há de comum da situação da juventude das classes trabalhadoras noutro lado do oceano, contida nos estreitos limites da instituição escolar e das empresas – exigência de formatação dos cérebros para o mercado de trabalho – e a nossa, que em grande parte vivencia a aparente indeterminação do futuro, sem lugar certo e papel a assumir, esperanças apenas sugeridas na estatística oficial do desamparo social?


De imediato, indispensável recusar a resposta, sempre pronta, óbvia, da culpabilização das vítimas com a única preocupação em não deixar os jovens ao léu; afinal, como diz o ditado, o diabo faz sua oficina nas cabeças vazias.


Uma possível saída real está num trecho da Carta a Alagoas, escrita em 1968 pelo mestre-escola e historiador Manoel Maurício de Albuquerque[4], aqui transcrito. Na palavra encontro – a nos convidar o compartilhamento – um caminho:


Com a rebeldia de quem sempre se sentiu dona do mundo, a juventude se agita, ansiosa por encontrar onde esgotar suas energias.


Eduardo Stotz



Imagem de capa: Memória, de Renné Magritte. Fonte: Taschen, 1995.

[1] Realschule: uma espécie de ensino médio, com menor duração, acessível aos trabalhadores. [2] Abitur: qualificação do ensino médio para entrar nas Universidades, uma espécie de vestibular. [3] CFM. Suicídio: informando para prevenir. Acesso em setembroamarelo.com, disponível em https://www.flip3d.com.br/web/pub/cfm/index9/?numero=14#page/1 [4] Albuquerque, Manoel Maurício de (obra póstuma); organização de Eulália Maria Lahmeyer Lobo et al. Rio de Janeiro Jorge Zahar, 1981, p.11.

Comentarios


Fique por dentro de todos os posts

Obrigado por assinar!

bottom of page