A ciência institucionalizada no IPCC e os aprendizes de feiticeiro da mudança climática
- encontraponto
- 23 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Eduardo Stotz
A COP 30 fracassou. O principal objetivo, o de encaminhar o processo para conquistar, no curto prazo (até 2030), uma substancial redução nas emissões de gases de efeito-estudo, de modo que a temperatura global não venha a ultrapassar a meta dos 1,5o C estabelecidos no Acordo de Paris, não aconteceu. Quem faz a afirmação é, nada mais, nada menos, do que Thelma Krug, coordenadora da 30a. Conference Of the Parties (30a.Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática ou COP30).
A importância da entrevista destacada aqui neste pequeno ensaio tem inicialmente uma relação com o atraso mundial dos estudos interdisciplinares nesse nível de complexidade. Esse é, para nós, o mais importante aspecto apontado pela cientista-chefe da COP 30 na entrevista. Ela traz à tona a fragilidade e os riscos do saber científico para lidar com os desafios climáticos no momento em que a previsão consensualmente aceita é a de um período de aumento da temperatura global.
Thelma Krug, matemática e estatística, com larga experiência no IPCC (International Panel of Climate Change) e na organização da COP 30, concedeu uma entrevista ao Jornal O Globo, publicada em 15 de novembro de 2025. [1]
Ao reconhecer o descontrole em relação à a meta de 1,5 C firmada no Acordo de Paris (2015) pelos 196 países participantes do IPCC, Krug informa que o IPCC está discutindo a possibilidade de exceder a temperatura e que aventa retornar a essa meta posteriormente. Eis o que a cientista afirma:
“Então é claro que para isso a gente vai precisar de métodos para a remoção do dióxido de carbono da atmosfera, só que os métodos não estão muito amadurecidos.” Indagada sobre tais métodos, ela se refere ao reflorestamento e restauração florestal em escala gigantesca, acima da experiência e da capacidade científica; ao mesmo tempo , sabe que na natureza o processo é complexo e que medidas desse tipo podem ser “atrapalhadas” pela própria mudança do clima. Uma alternativa para a retirada de CO2 da atmosfera seria:
“...a fertilização do oceano, estimulando o crescimento das algas, mas a gente morre de medo desse tipo de coisa. Tecnologias como essa não foram bem testadas, não sabemos se podemos controlar”.
Sem o dizer abertamente, Krug admite que os cientistas possam aventurar-se a serem aprendizes de feiticeiros – colaborando, obviamente, com alguns países em detrimento de outros, ou seja, transformando o conhecimento em arma geopolítica.
Admite a urgência extrema de medidas de controle mas que, apesar das tecnologia disponíveis para reduzir as emissões de gases-estufa pela metade para o período de 2019-2030, existem “barreiras institucionais, financeiras, culturais, uma série de barreiras ambientais que inclusive retardam esse processo [de controle das emissões dos gases de efeito estufa].” Obviamente, não faz nenhuma referência ao capitalismo que sustenta esse impasse, aos interesses enraizados na sua estrutura e aos conflitos entre classes e frações de classes expressos nas assim chamadas políticas públicas, organizadas pelos Estados nacionais, aos quais se acrescenta a militarização das sociedades e as guerras em curso [2] — as verdadeiras “barreiras” ao enfrentamento da crise ambiental em curso.
Por fim, Thelma Krug admite a possibilidade de que o “IPCC deixaria ou já está deixando de ser relevante” porque seus relatórios (...) só saem a cada três e cinco anos“, E conclui: “Não temos mais esse tempo.”
Diante do impasse, resta seguir em frente para ver o que é que dá. Retomar o caminho da adaptação e da mitigação, aperfeiçoando as medidas e experimentando os efeitos (e os desastres), ignorando solenemente que não há ponto de retorno na evolução climática global, na biodiversidade etc. [3] . É a atual solução burguesa mundial (“global”), centrada na descarbonização das atividades econômicas enquanto solução universal para preservar o indicador do Acordo de Paris (2015) , do qual depende o futuro da humanidade. Há de se observar a conjugação dos verbos no tempo presente. Não foi Lorde Keyes quem outrora disse “a longo prazo estaremos todos mortos”?
Não nos precipitemos a criticar tal concepção e medidas como reles manipulação político-ideológica. Sob o capitalismo a razão universal está a serviço do particularismo burguês: para esta classe a única realidade é a do sistema capitalista, considerada aliás etapa final da história da humanidade ou “fim da história” , celebrizada pelo obscuro filósofo Francis Fukuyama, que resgatou Hegel para a defesa dos estados fortes e estáveis em obra publicada no ano de 1992. A realidade é, deste modo, a existente no tempo presente, compatível inclusive com a dinâmica contraditória do sistema baseada na intensa exploração da força de trabalho, desemprego da maioria dos trabalhadores, guerra e destruição da natureza. A sustentação do presentismo eterno (o mito de Sísifo atualizado), tem a seu favor uma plêiade de intelectuais, cientistas, religiosos e promotores culturais, com ampla repercussão midiática.
Os fatos, porém, resistem à ideologia. O século XX foi o século das revoluções, a demonstrar tentativas de sair dessa prisão sistêmica. A memória dos eventos e processos ainda está presente e referenciada publicamente para apontar a possibilidade da organização de outro futuro. Advirtamos, contudo: possibilidade não é previsão. Se a dinâmica contraditória do sistema aponta tendências que permitem supor a superação do existente e desvendar um horizonte de futuro alternativo, tudo depende da apropriação das crises no aprendizado coletivo nas lutas de classes.
Portanto, o caminho da superação da crise ambiental passa ao largo da ciência oficial, de suas recomendações e de seus interesses, muitas vezes inconfesso. A referência para o nosso futuro imediato são os movimentos ambientalistas, cada dia mais combativos e amplos. O maior desafio desses movimentos ainda consiste no seu isolamento em relação aos trabalhadores, e vice-versa; para isso, os movimentos ambientalistas e sindicais precisam admitir que a crise ambiental em seus diferentes aspectos (climático, energético, etc.) não consiste em problema igual para todos, uma vez que “o fardo pesa mais e de modo contundente para os trabalhadores com salários médios e baixos, os aposentados com pensões minguadas, os desempregados, os estudantes, os inquilinos.” [4] A crise ambiental precisa transformar-se em luta de classe.
Separemo-nos, pois, para ter o direito a ser uma alternativa. Concluímos esse ensaio com a última frase do diálogo entre Marcopolo e Kublai Khan, em Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, a qual remonta à dialética entre reforma e revolução. Citamos aqui de memória: o inferno, se existe, é aquele que nós, juntos, constituímos. Nosso repto é identificar o que, no inferno não é inferno, para ampliá-lo e avançar.
21 de dezembro de 2025
Notas:
[1] A análise e transcrições da entrevista basearam na versão impressa do jornal. A versão digital está disponível em https://oglobo.globo.com/brasil/cop-30-amazonia/noticia/2025/11/14/entrevista-nao-sabemos-como-vamos-reverter-o-estouro-da-meta-de-temperatura-diz-cientista-chefe-da-cop30.ghtml
[2] Processo histórico sobredeterminado, portanto, pelo imperialismo como fase do capitalismo em nossa época (1884 - ...). Adotamos a Conferencia de Berlim realizada em 1884 como marco temporal inicial do imperialismo, uma vez que regulamentou politicamente a divisão do continente africano entre Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos, conservando as possessões coloniais de Portugal. Vide Hobsbawm, A era dos impérios (1987).
[3] Abordamos o assunto em Crise Ambiental: certeza, incerteza, luta (2025), disponível no blog Encontraponto para download.
[4] ARBEITERPOLITIK. Sindicatos e o Movimento de Proteção Climática – Abordagens Iniciais para a Cooperação Necessária? 1º de junho de 2023. Disponível em https://arbeiterpolitik.de/2023/06/gewerkschaften-und-klimaschutzbewegungerste-ansaetze-einer-notwendigen-zusammenarbeit/
Imagem de capa: ilustração de Nelson Cruz para o livro "O aprendiz de feiticeiro", de Goethe.


