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"O moinho deixou de existir, mas o vento continua"

A carta publicada a seguir foi extraída do livro Cartas a Théo, de Vincent Van Gogh, com tradução de Pierre Ruprecht (Porto Alegre: L&PM, 2002, 404 p). As fontes referidas pela editora são uma antologia organizada por Georges Phillipart e editada em Paris na década de 1930 e a publicação da totalidade das cartas lançada pela editora holandesa Maatschappif Voor Goede, em 1914. A carta não está datada. Consta no capítulo Nuenen (dezembro de 1883 – novembro de 1885), nas páginas 137-141.


A datação e as notas inseridas no texto da carta encontram-se na edição da The Frick Collection, Carta 461, de Neunen, datada entre 22 e 28 de setembro de 1884. O texto em inglês encontra-se disponivel no site Van Gogh The Letters.


Carta de Vincent a Theo


Não pude dar outra forma à minha última carta. Mas saiba que me parece tratar-se de uma desavença inevitável entre você e eu, mais que qualquer outra coisa cuja culpa fosse exclusivamente nossa.


Você me conta que logo haverá uma exposição de Delacroix. [1] Bom. Você certamente verá lá um quadro: A Barricada, que conheço apenas por biografias de Delacroix. Foi pintado, acho, em 1848. [2] Você conhece, além disso, uma litografia de Lemud, acho; se não for dele, é de Daumier; ela também representa a barricada de 1848. [3]


Gostaria que você nos imaginasse os dois vivendo neste ano de 1848, ou num período análogo, pois quando do golpe de estado de Napoleão aconteceu algo de semelhante.[4] Não lhe direi nada que o irrite - aliás, esta nunca foi minha intenção. Quero apenas fazê-lo compreender em que medida a separação que se deu entre nós está relacionada com as correntes gerais que se produzem no mundo, e que desta forma esta separação não tem nada a ver com uma maldade deliberada. Suponha, portanto, que estejamos em 1848.


Quem eram aqueles que se encontraram frente a frente e que podemos tomar como representantes de todos os outros? Guizot, ministro de Luís Felipe, de um lado [5]; Michelet e Quinet com os estudantes, do outro. [6]


Começarei com Guizot e Luís Felipe: eram eles maus ou tirânicos? Não precisamente, eram gente, pelo que vejo, igual a, por exemplo, papai e o avô, O velho Goupil. [7] Pessoas, enfim, de aspecto extremamente venerável, grave e sério. Mas, quando as observamos um pouco mais atentamente e de perto, têm algo de lúgubre, de inexpressivo, de caduco, a tal ponto que nos deixariam doentes. Acaso será exagero?


À parte as diferenças de posição, o mesmo espírito, o mesmo caráter. Estou enganado?


Tomemos agora, por exemplo, Quinet ou Michelet, ou, mais tarde, Victor Hugo. [8] A diferença entre eles e seus adversários seria afinal tão formidável? Sim, mas vendo as coisas superficialmente ninguém o diria; eu mesmo certa época achei igualmente bons um livro de Guizot e um livro de Michelet. Mas, no meu caso, à medida que fui mais a fundo, percebi a diferença, e mais, a contradição.


Percebi, enfim, que um gira em círculos, perde-se, e que do outro, ao contrário, resta algo de infinito. Desde então aconteceram muitas coisas. Mas tenho como certo que, se você e eu tivéssemos vivido naquela época, você se encontraria ao lado de Guizot e eu ao lado de Michelet.


E permanecendo os dois coerentes consigo mesmos, poderíamos com uma certa tristeza nos encontrar frente a frente, como inimigos, por exemplo, numa das barricadas, você à frente, soldado do governo, eu atrás, revolucionário ou rebelde.


E veja que hoje, em 1884 (por acaso os algarismos são exatamente os mesmos, mas invertidos), encontramo-nos novamente frente a frente, embora na verdade não haja barricadas. Mas elas ainda existem para os espíritos que não podem estar de acordo. "O moinho não mais existe, mas o vento continua." [9] (com aspas e itálico no original da L&PM)


E encontramo-nos, em minha opinião, frente a frente em campos diferentes, não há nada a fazer.


Quer você queira ou não, você deve continuar, eu devo continuar. Mas, como somos irmãos, não é preciso que nos matemos um ao outro (no sentido figurado).


Quanto a nos ajudarmos como dois homens que se encontram lado a lado no mesmo campo, é impossível, pois, se tivéssemos que nos reunir, nos arriscaríamos a cair sob o fogo do outro.


As frases irritantes que me brotam são balas atiradas não contra você, que é meu irmão, mas mais geralmente contra o partido no qual você se encontra. Tam#bém não me sinto diretamente visado pelas frases irritantes que vêm de ti. Mas você está atirando contra a barricada e acredita ter méritos por isto; acontece que eu estou atrás dela.


Pense portanto um instante em tudo isto, se puder, pois não acho que você encontrará muito o que corrigir. Não posso falar diferente do que penso; é mais ou menos desta forma que é preciso ver as coisas.


Espero que você entenda o que quero dizer no sentido figurado.


Nem eu nem você nos ocupamos com política, mas estamos na Terra, no mundo, e os homens agrupam-se por si próprios em categorias.


Será que as nuvens podem escolher, afinal, se pertencem a um ou outro grupo da tempestade? Se carregarão eletricidade negativa ou positiva? É bem verdade que os homens não são nuvens. Enquanto indivíduos, fazemos parte de um todo que constitui a humanidade. Nesta humanidade há partidos. Até que ponto é a vontade própria, até que ponto é a fatalidade das circunstâncias, que fazem com que pertençamos a um ou a outro partido?


Enfim, estava-se então em 48, agora estamos em 84; o moinho não existe mais, o vento continua. Trate ainda assim de saber por si próprio de que lado você realmente se encontra, assim como eu tento sabê-la por mim mesmo.


Cartas a Théo/Vincen Van Gogh: tradução de Pierre Ruprecht – Porto Alegre: L&PM, 2002, 404 p.


Notas


[1] Exposição de Eugène Delacroix para beneficiar a subscrição destinada a erguer um monumento à sua memória em Paris), Paris (Ecole Nationale des Beaux-Arts) 6 de março a 15 de abril de 1885. Ver Johnson 1981-1989, vol. 1, pág. xxxiv.


[2] Eugène Delacroix, La barricade (A barricada), ou: La Liberté guidant le peuple (A liberdade guiando o povo), 1830 (Paris, Museu do Louvre). III. 64 [64]. Van Gogh está enganado (mas escreve 'eu acho'): a pintura retrata a revolução de julho de 1830, não a revolta popular de junho de 1848. Delacroix também falou de uma barricada em suas cartas: 'Eu embarquei em um assunto moderno , Uma barricada '('J'ai entrepris un sujet moderne, Une barricade '). Ver Johnson 1981-1989, vol. 1, pp. 144-151, cat. não. 144.


[3] Theo deve ter lido a litografia sobre a “A revolução de 1848: uma família na barricada”, de Daumier.


[4] Louis Napoleon Bonaparte tornou-se presidente da França em 20 de dezembro de 1848, violou a constituição e forçou uma presidência de dez anos após o golpe de estado de 2 de dezembro de 1851. Um ano depois, ele se proclamou imperador Napoleon III.


[5] François Guizot participou da revolução de julho de 1830 e depois se tornou um dos pilares da monarquia de julho do rei Louis Philippe I. Ele gradualmente se tornou mais conservador e foi nomeado primeiro-ministro em 1847. Sua atitude complacente em relação ao rei provocou a revolução de fevereiro de 1848. Louis Philippe I inicialmente governou como um rei cidadão, mas tornou-se cada vez mais autoritário; seu regime tornou-se corrupto. Ele também foi derrubado pela revolução que inaugurou a Segunda República (1848-1852).


[6] Edgar Quinet e Jules Michelet, ambos de opiniões liberais, rebelaram-se contra a política conservadora e ultramontana de Guizot.


[7] Adolphe Goupil , fundador da empresa Goupil & Cia.


[8] Victor Hugo escreveu vários romances em que a Revolução apareceu, entre eles Les misérables (1862), Quatre-vingt-treize (1874) e Histoire d'un crime (1877-1878).


[9] Esta linha foi extraída de Victor Hugo , Les misérables , livro 1, capítulo 10. Ver Hugo 1951, p. 67. Dito por um ex-revolucionário ('le conventionnel') em uma conversa com o bispo Bienvenu sobre as conquistas da Revolução Francesa: “Nós derrubamos o ancien régime na prática, não conseguimos acabar com ele inteiramente nas ideais”. (Nous avons démoli l'ancien régime dans les faits, nous n'avons pu entièrement le supprimer dans les idées.) Essa ideia está diretamente ligada ao que Van Gogh afirma antes da citação.


Pós-escrito


Steven Naifeh e Gregory White Smith, em sua notável e gigantesca biografia A Vida de Van Gogh (1096 páginas!), em tradução para a língua portuguesa publicada pela Companhia das Letras em 2012, alegam ter a carta de Vincent a Theo de 22 – 28 de setembro de 1884 um sentido absolutamente marcado pelas desavenças dos irmãos a respeito do caminho artístico que ele, Vincent, deveria seguir, abandonando o desenho e os tons escuros em favor da pintura e das tonalidades da cor tão caras ao impressionismo. Os argumentos revolucionários, para Naifeh e Smith, representam o desespero e amargura do artista frustrado nesse embate.


Na carta, Vincent menciona com insistência o seu verdadeiro lugar na história da arte, assumindo-se como um herdeiro da geração de 1848 (Delacroix, Daumier) e dos “pintores camponeses de Barbizon” (Corot, Millet), mas igualmente do ponto de vista de classe, de uma identidade entre a sua situação e a do proletariado e do povo, principalmente do campesinato. A identificação vinha de longe, de sua atuação pastoral entre os mineiros do carvão do Borinage holandês, de sua estada em Dendre e, finalmente, no povoado de Neunen, onde começou o desenvolvimento de seu trabalho artístico. É em Neunen que os desenhos resgatam os tecelões em seu trabalho prestado ao capitalista no próprio domicílio. Esse labor prolongado, constante e incansável no tear adquire o mesmo sentido para a sua arte. Ressalte-se que Vincent não dominava o desenho da figura humana, mas insistia. A resposta ao desafio desse esforço pelos biógrafos afirma o tema da identidade de classe, apesar de sua negação quando da referência à carta aqui examinada.


Vale transcrever uma passagem da biografia acima referida: “Os tecelões talvez não fossem adequados para a luta artística de Vincent, mas eram totalmente adequados para sua luta maior. No manual burguês dos bichos-papões de Dorus e Anna, os tecelões empatavam com os mascates e os amoladores como gente sem raízes, de hábitos pouco convencionais e um meio de vida pouco responsável. (…) [Os tecelões de Neunen] eram cercados de boatos e lendas. Na década de 1880, o ativismo militante entre tecelões de toda a Europa havia reforçado essas velhas superstições, acrescentando as suspeitas de agitação política e insurreição social.” (p. 452. A palavra grifada é nossa, para acentuar uma sombra de dúvida no pensamento dos autores.)


A perspectiva de Vincent na carta é revolucionária, ainda que não seja a de um ativista político. Em sua defesa dos ideais de 1848 captou o espírito daquela época de revolução social. É o ano em que Marx e Engels, com seus camaradas da Liga dos Comunistas, entram, com a pena e os fuzis, na cena revolucionária da Alemanha. Um ano antes, no desfecho da obra A Miséria da Filosofia, Marx apôs uma frase da novela Jean Siska, de George Sand: Le combat ou la mort; la lutte sanguinaire ou le neant. C’est ainsi que la quéstion est invinciblement posée. ("O combate ou a morte; a luta sangrenta ou nada. Assim é que a questão está incontornavelmente posta.")


O moinho deixou de existir, mas o vento continua.


Eduardo Stotz

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