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O movimento operário e sindical no ABC entre 1977 e 1980: um capítulo de História do Brasil

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João Ferreira


O que o/a leitor/a visualiza aqui é a apresentação do livro “As lutas operárias e sindicais dos metalúrgicos em São Bernardo (1977-1979), Volume 1”, de Luís Flávio Rainho e Oswaldo Martines Bargas.[*] Publicado no ano de 1983 pelo Fundo de Greve, sob a denominação de FG/Associação Beneficente e Cultural dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, a obra constitui uma impressionante e densa descrição das greves de 1978 e 1979, indisponível para download na internet. Os autores pretendiam escrever, na sequência, um segundo volume, dedicado à greve de 1980. Na medida em que o intento não se realizou, consideramos importante acrescentar alguns registros e observações sobre esta última greve.


Avaliamos tratar-se de um importante testemunho daquele período, embora discordemos de muitas das interpretações referidas aos fatos narrados. Adotamos, contudo, um caminho diferente dos estudos acadêmicos, mesmo aqueles voltados para enfatizar a luta dos operários como iniciativas autônomas, conferindo a elas o papel de sujeitos políticos. Pretendemos aqui indicar uma possível contribuição política para a escrita deste capítulo de História do Brasil.


***


Lembremos que o movimento operário iniciado em 1978 é assim caracterizado por Rainho e Bargas para destacar a espontaneidade das lutas, ou seja, por não ser coordenado pelo sindicato. O movimento tem como ponto de partida a greve na Scania, empresa fabricante de caminhões pesados, ônibus e motores. Os motivos da paralisação, lembrados por Gilson Menezes, diretor do sindicato e operário da ferramentaria, estavam relacionados à lutas anteriores e à Campanha pela Reposição Salarial de dos 34,1% em 1977. [1]


Na entrevista concedida e Joaquim Alessi, em 2008 , Gilson recorda que procurou Lula para avisar da greve:


...na madrugada daquele 12 de maio de 1978, ele ligou para o presidente do sindicato e anunciou: “A ferramentaria parou!”. A resposta de Lula foi raivosa:


“Puta que o pariu, isso vai dar merda. Não podia ser assim, agora. Precisa de um mês para organizar…” E Gilson rebateu: “Se demorasse um mês para organizar, isso iria vazar e os ‘home’ impediriam a greve”.


Iniciada em 12 de maio, a greve prosseguia quatro dias depois quando as demais automobilísticas também havia parado. Então Lula aparece como mediador, conseguindo realizar uma assembleia dentro da fábrica. Concessão feita pela diretoria da Scania porque Lula havia acertado as bases de um possível acordo, exigindo, porém, o retorno imediato ao trabalho.


Importante observar que o Sindicato não convoca uma assembleia conjunta dos operários metalúrgicos em greve da Mercedes, Ford do Brasil, Motores Perkins, Volkswagen e outras. Prefere negociar caso a caso. Mas a opção de ser um mediador esbarra na resistência patronal organizada na Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA). Inevitavelmente as “bases do acordo” estabelecido com a diretoria da Scania foram descumpridas e os operários, ao voltar para trabalhar se depararam, na fábrica, com divisórias de madeira que impediam os trabalhadores se deslocar entre as seções, impedindo comunicação entre si, sob a estrita vigilância de “guardas nas portas, banheiros, corredores e interior das seções”. (p.71)


Até então o comportamento do sindicato consistia em defender juridicamente as reivindicações dos trabalhadores que, obviamente, em nada resultavam. A crença do poder da legislação e do sistema jurídico encarregado de executá-la chegava ao ponto de dos operários receberem advertência dos ativistas e lideranças no interior das fábricas” (p.79). Os operários, então, procuraram uma “saída própria para seus problemas”. (idem) (...) O espírito da greve foi-se formando, amadurecendo. Aprenderam, assim, a fazer greve organizando a greve na própria greve.” (idem)


Dada a resistência do sindicato, operários com experiência de liderança nas greves começaram a se reunir regularmente, fora do sindicato. Resolveram denominar-se “Grupão” (p.99). Logo os operários vinculadas à organizações de esquerda propõem que o “Grupão” se assumisse como “vanguarda” e assumisse a campanha salarial de 1979. Em resposta, a diretoria “passa a canalizar para o Sindicato (...) o trabalho de base que [parte dos ativistas] realizavam. (...) Recuperava a iniciativa e podia provocar um “racha” no Grupão, afastando aqueles ligados às organizações de esquerda." (p.100)


Em 1979 os operários que já tinham experiência de greve anterior e já levantavam a possibilidade de greve geral, “caso os patrões se colocassem em posição intransigente e não levassem a sério as reivindicações apresentadas.” (p.116) Mas a informação de que as empresas estavam sendo orientar a estocar a produção obrigou o sindicato a conclamar que ninguém fizesse hora extra (118). A recusa patronal empurrou o sindicato a convocar assembleias para decidir sobre a entrada ou não em greve. Esta foi decidida no dia 12 de março de 1979. Ratificada na assembleia no Estádio de Vila Euclides, a greve encontra o caminho dos piquetes, contra a decisão da diretoria do sindicato, que orientava os operários a “permanecerem em casa ou se dirigirem para a sua sede.” (p126) Diante da violenta repressão da Polícia Militar, os operários descobrem os piquetes em ônibus dos bairros”, os quais chegaram “a contar até com 200 ou mais trabalhadores (...) independentemente e até mesmo sem o conhecimento da direção da greve.”(p.127)


A decretação de ilegalidade da greve pelo TRT, no dia 15 de março, encontra o sindicato já com um Fundo de Greve organizado, dado o entendimento de que a greve exigiria sua própria manutenção. (p.128-129). Do lado patronal e da ditadura militar a intervenção sobre o sindicato e a destituição da diretoria seria imperiosa.


A intervenção ocorre às quatro horas da manhã do dia 23 de março, com o cerco repressivo da sede do sindicato (p.133). A resposta dos trabalhadores, que saem do sindicato rumo ao Paço Municipal de São Bernardo, aumenta a repressão, com prisões e proibição de assembleias no estádio de Vila Euclides. O afastamento de Lula conduz à dispersão da diretoria (137-38).


No dia 26 de março, Lula e a diretoria assumem-se como comando da greve e, a par de ressaltar a experiência dos piquetes de bairro, enfatizam o caráter pacífico e ordeiro do movimento. (Anexo 30, p. 226-27)


Pouco antes da assembleia de 27 de março haviam chegado a um acordo com a FIESP e o Ministério do Trabalho, com o objetivo de estabelecer uma trégua de 45 dias. Na assembleia, que reuniu 70 mil trabalhadores, Lula encaminha a proposta que, entre vaias e aplausos, acabou sendo aprovada sob o pedido de um voto de confiança, do qual disse Lula para a tumultuada assembleia, “vocês não se arrependerão”. (Anexo 31, p. 231).


Contudo, face à “intransigência patronal”, que se negava a negociar a partir das reivindicações dos metalúrgicos, Lula procurou o próprio ministro do Trabalho. Resulta daí a possibilidade de um acordo que devolveria o “sindicato oficial”, ou seja, atrelado ao Estado, às mãos da diretoria.


Os autores relatam a reunião ocorrida no dia 11 para responder à questão: “É mais fácil a Diretoria voltar com greve ou sem greve?”. Prevalece a posição de suspender a greve. Então no dia 12 realizam um encontro com empresários e o ministro do Trabalho e assinaram o acordo levado, no dia 13 de maio, para ser votado na assembleia em Vila Euclides. Os dirigentes e ativistas sabiam que a grande maioria dos operários estava contra o acordo. Para evitar o desgaste de Lula, escalam Enílson de Moura, conhecido como Alemão, conhecido pela atuação na campanha pela reposição salarial de 34,1%, para discursar em defesa do acordo e da retomada do sindicato, poupando Lula do desgaste. Lula, ao tomar a palavra para afirmar que não queria “jogar a classe trabalhadora num poço, num beco sem saída”, observa o descontentamento dos trabalhadores (vaias). De acordo com Rainho e Bargas “antes de Lula terminar o Estádio encontrava-se parcialmente vazio.” (p.157)


A disposição de luta dos operários das automobilísticas evidenciava o surgimento de uma camada mais avançada, descolando-se da diretoria do sindicato e seus ativistas. Percebiam a necessidade de agir como classe para enfrentar a resistência oposta pelo patronato organizado na Anfavea e FIESP, sustentada pela ditadura militar. Apesar do caráter econômico da luta de classe, estabelecer um patamar de aumento salarial compatível para os trabalhadores beneficiaria não apenas aqueles mobilizados na greve, como igualmente os que, em razão da grande rotatividade provocada pelas empresas, viriam a ocupar seus postos após as inevitáveis demissões e o esvaziamento do sindicato. Como, aliás, os autores do livro “As Lutas Operárias e Sindicais...” registram, em decorrência desse esvaziamento, muitas lideranças de fábrica acabaram por aderir a organizações de esquerda (p.164).


Como afirmamos anteriormente, a pretensão dos autores de “As Lutas Operárias e Sindicais...” era a de dar continuidade ao trabalho contemplado no volume 1. Tal intenção nunca se materializou.


Acrescentamos, então, algumas páginas para cobrir a lacuna. [2]


***


O ano de 1980 anunciava-se ser muito difícil para os trabalhadores, ou seja, a maioria absoluta do povo brasileiro, a essa altura já majoritariamente urbanizado. A inflação anual atingira, em fins de 1979, o marco dos 77%, a mais elevada taxa de todo o período da ditadura militar. Uma maxidesvalorização do cruzeiro permitiu manter o nível de crescimento, a essa altura já baixo, favorecendo a indústria automobilística, cuja produção voltava-se em grande parte para o mercado externo. Mas a desvalorização da moeda acentuava a inflação pelo lado das importações; a segunda crise do petróleo no mundo, com elevação dos preços, atingiu fortemente a economia brasileira – o país dependia de algo em torno de 80% do consumo diário - obrigando o repasse aos preços aos consumidores. Para renegociar a dívida externa, em patamar explosivo impulsionada pelo aumento dos juros do Federal Reserve, o país teria que se submeter ao plano recessivo do Fundo Monetário Internacional. Se era politicamente impensável naquele momento em que a transição democrática era acertada pelos militares com os representantes diretos da burguesia (lideranças da Arena e do MDB) e também com a cúpula da Igreja, o governo Figueiredo, sob a batuta de Delfim Netto, impulsionava as medidas econômicas cujo desfecho seria a recessão de 1981-1982. A meta governamental era reduzir a inflação da casa dos 77% para 45%, em 1980. Não havia dúvida de quem pagaria o custo. Os trabalhadores da indústria metalúrgica tinham de avançar o máximo que podiam em suas reivindicações. A luta iria ser dura.


Esse era o cenário no qual os metalúrgicos do ABC iniciaram as negociações. Eis um quadro expositivo das posições entre os sindicatos da Grande ABC e a FIESP no início da campanha salarial:


 

 

Pauta

 

Sindicatos dos trabalhadores

 

 

FIESP

 

Reposição salarial

INPC (39,9%) e 15% de produtividade

INPC (39,9%) e 5% de produtividade

Reajuste

Reajuste trimestral dos salários

 

 —

Piso salarial

12 mil cruzeiros mensais

5.904 mensais

 

Organização

nas empresas

Reconhecimento de delegado sindical e livre acesso aos diretores nas empresas

 

 

Jornada

Redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais

 

Não à redução

Horas extras

Adicional de 100%

5% até o limite de 50% nos dias uteis


Para o patronato, mais importante não eram as reivindicações em si, e sim a atitude de não negociar além da contraproposta. Isso significava resistir à greve como classe e, em última instância, com apoio estatal, dobrar o movimento e derrotá-lo como um ensinamento político para o conjunto dos trabalhadores. O que ultrapassa, evidentemente, o âmbito regional em que a greve se desenvolveu.

Iniciada em 18 de março, a campanha dirigida pelo sindicato sustenta-se na operação tartaruga desencadeada nas bases dos três sindicatos do Grande ABC e a recusa em fazer horas extras. Finalmente a greve acontece na data-base das categorias, em 1 de abril.


Luiz Inácio da Silva, o Lula, afirma em assembleias gigantescas que o movimento estava preparado para o enfrentamento aos patrões (“Este ano não haverá trégua para negociar”). Os metalúrgicos criam um Comando de Greve, capaz de manter o movimento, e um Fundo de Greve bem estruturado, ambos organizados de modo a funcionar sem a dependência da organização do sindicato, dada a previsível intervenção do Ministério do Trabalho.


Em 10 de abril o Sindicato de São Bernardo lança campanha nacional com o objetivo de recolher o equivalente a uma hora de serviço de todos os trabalhadores brasileiros para o fundo de greve. E declara: “Se os empresários e o governo querem guerra, vão ter guerra”. O 1 de Maio, com a participação de 150 mil pessoas no estádio de Vila Euclides, marcou o ponto alto da greve.


Mas a desproporção em termos de força era evidente. A repressão sobre o movimento, desencadeada pela Polícia Militar, com óbvia orientação do II Exército, consiste numa estratégia de cerco, mediante impedimento de assembleias no Estado de Vila Euclides e daquelas realizadas fora das dependências internas da Igreja Matriz de São Bernardo, apoiando decisões judiciais, como a decretação da ilegalidade da greve, a intervenção no sindicato e a cassação da diretoria, a repressão direta aos ativistas e a todos participantes que apoiavam a greve, inclusive mulheres e crianças. E, por último, a prisão preventiva de Lula e de mais 13 dirigentes sindicais, enquadrados na Lei de Segurança Nacional, em 21 de abril.


As assembleias dependem do Comando em liberdade, no qual se destacam Osmar Mendonça, Enílson Simões de Moura, o Alemão, e Nelson Campanholo, o único membro da executiva do sindicato ainda em liberdade. O Comando da Greve decide restringir a atuação às grandes empresas, que representam a maioria da categoria em São Bernardo. O diário ABC Jornal passou a ser o meio de divulgação pública da greve e, ao mesmo tempo, órgão oficial da greve com a entrada de João Ferrador como principal colunista.


No dia 10 de maio 1.500 mulheres, crianças e inclusive bebes de colo, acompanhadas pelo Comando de Greve, fazem passeata e, na assembleia da Igreja Matriz, solicitam a reabertura das negociações. No dia 11 de maio, depois de 41 dias de paralisação, a greve em São Bernardo termina.


***


A decisão de continuar a luta dentro das fábricas após o fim da greve se depara com demissões massivas. Em janeiro de 1981, a Volkswagen anuncia a demissão de 3.000 trabalhadores e coloca 7 mil em férias, sob alegação de produção superior à permitida pelo mercado. Mas uma parte era simplesmente recontratada com salários mais baixos, uma posição humilhante para quem havia lutado com tanta coragem e disposição. [3]


A recessão econômica em que o país mergulha nos anos 1982-84, deixando como resultado um longo período de “estagflação”, atinge duramente os operários da indústria automobilística do ABC. Em 1981, a indústria operava com prejuízo, utilizando de 50% a 60% da sua capacidade de produção. O desemprego de um operário gerava de três a cinco demissões no setor de autopeças e serviços ligados ao setor, além das fundições e da siderurgia. [4] Mais importante: as demissões, acompanhadas das listas negras, e o desemprego conjuntural dispersam o núcleo combativo dos metalúrgicos.


O surgimento e o desaparecimento do efêmero movimento operário, que marca os anos de 1977 a 1980 no ABC, participa de uma tendência mais ampla, na qual se ressaltam as lutas dos operários metalúrgicos de São Paulo, sob a liderança da Oposição Sindical Metalúrgica. É contra esse movimento, aliás, que o denominado sindicalismo dito “autentico e combativo” de Lula desenvolve esforços de desarticulação nos anos 1980. [5]


A capitalização eleitoral desse intenso processo de lutas por meio do PT envolve a liderança dos metalúrgicos na vida política institucional (eleições municipais de 1981). Em seguida, Lula concorre à eleição para o governo do Estado de São Paulo, em 1982. É quando assume o nome pelo qual é conhecido até hoje. Na compreensão dessa liderança, o centro político de gravidade no Brasil está no poder executivo e não o legislativo, perspectiva que poderia colocá-los na oposição sistemática à estrutura de poder burguês no Brasil e não deixá-la à deriva das relações de força sempre superiores da burguesia.


Em 1980 encerra-se um capítulo da nossa história. Um balanço desse processo numa perspectiva crítica, pautada na análise da luta de classes tal como se desenvolveu principalmente em São Bernardo, como seu ponto mais avançado naquela época, nos levaria a pensar na reescrita desse relevante capítulo da História do Brasil, dada a abundante literatura acadêmica a respeito. Trata-se, porém, de um desafio fora das possibilidades desta Apresentação. Ficam aqui breves anotações como possíveis contribuições para esse estudo.


Uma avaliação sobre a importância do movimento operário dos anos 1977-1980 deixa claro que a compreensão dialética das lutas de massa e da organização sindical implica tanto em oposição quanto em unidade.


O movimento operário e os dirigentes que nele se firmam surgem no final de um longo período de ditadura militar. A falta de experiência política os empurra para o caminho da democracia burguesa que está sendo conduzido pelo Alto Comando das Forças Armadas, em negociações com a Arena e o MDB, bem como da cúpula da Igreja Católica. Devido a inexistência de luta política aberta, os interesses de classe não podiam manifestar-se com clareza (na longa noite da ditadura “todos os gatos eram pardos”). Ademais a única visão política de oposição admitida publicamente era a democrática, ou seja, abrangente, e isso significa falar de uma burguesia ”liberal”. Assim, a democracia era o horizonte da sociedade brasileira, almejada pela maioria dos trabalhadores.


Apesar dessas limitações, a iniciativa própria das massas no local de trabalho, a sua capacidade de aprender nas lutas, a invenção das formas de luta e de organização e o desenvolvimento da percepção de enfrentar uma luta de classe, destacam-se no movimento de São Bernardo como uma experiência de tal magnitude que nos permite caracterizá-lo como um movimento operário próprio. Certamente não está separado do sindicato, mas o impulsiona, muitas vezes obriga-o a ir além das crenças na capacidade de negociação “em nome das massas”.


Nesse contexto, apenas a liderança do Comando de Greve poderia ter ajudado o movimento a ir além da sua espontaneidade. Isso não aconteceu. Assim, a experiência do movimento nos anos 1977-1980 mostra também os limites da liderança. Um importante momento político abre-se em 1980, quando a intervenção no sindicato, a cassação e a posterior prisão dos dirigentes sindicais obrigou o movimento a continuar a avançar com seus próprios pés, possibilitando a criação, na estrutura organizada do Comando de Greve e de seu suporte no Fundo de Greve, de um esboço de sindicato livre do atrelamento ao Estado burguês. Esse momento passou e nada foi dito pela liderança sindical sobre a necessidade de lutar pelo fim do sindicato atrelado – apontada pela experiência de luta da greve e que teria de ser assumida pelo conjunto dos trabalhadores, como classe. Os dirigentes do sindicalismo “autêntico e combativo” não raciocinavam em termos de luta de classe. Pensavam na luta econômica sob novas condições, ou seja na democratização política do país, para não serem tratados, quando faziam greve, como bandidos e animais. Somente uma esquerda revolucionária, enraizada no movimento operário, poderia ir além dessas limitações. Naquele momento, contudo, a maioria das organizações está implicada com o movimento sindical ou, opondo-se a ele de modo crítico, encontra-se exaurida em termos de forças e isolada para assumir quaisquer iniciativas de peso.


Há em tudo isso também ensinamentos para aqueles grupos aos quais revolução é mais do que uma palavra do dicionário político. Revoluções são eventos históricos situados numa temporalidade secular, provocados por abalos profundos na ordem burguesa, independente da vontade dos revolucionários. Entretanto, o que eles podem (e devem) fazer em períodos de estagnação e descrença como o que estamos vivendo atualmente é aprender e ajudar o movimento social, do qual podem vir a ser uma expressão organizada, a caracterizar os interesse de classes envolvidos nas lutas, mesmo elementares, e portanto, a situar as condições de luta com que se deparam. Nesse sentido, citamos aqui as palavras de Rosa Luxemburgo dirigidas em sua polêmica com Lênin em 1904, ao enfatizar que a socialdemocracia (revolucionária) ou a vanguarda revolucionária do proletariado

“...nasce historicamente da luta de classes elementar. E move-se na contradição dialética de que só na própria luta é recrutado o exército do proletariado e de que também, só na luta, as tarefas de luta se tornam claras.(...) Por um lado, exceto quanto aos princípios gerais da luta, não existe um conjunto detalhado de táticas, já pronto, que um comitê central pode ensinar aos membros da socialdemocracia, como se estes fossem recrutas. Por outro lado, o processo de luta que cria a organização conduz a uma constante flutuação da esfera de influência da socialdemocracia.“ [6]


***


Essa é a nossa leitura de “As Lutas Operárias e Sindicais...”.

Convidamos o (a) leitor (a) a fazer a sua.


Para ler o livro, acesse aqui.



Notas


[*] Bargas estava empregado na Volkswagen quando eclodiram as greves de 1978 e tornou-se ativista do sindicato, vindo a integrar a sua diretoria em seguida. Conheceu Lula no auge do movimento sindical e da fundação do PT. Rainho, sociólogo, escreveu “Os peões do grande ABC”, resultado de sua tese de doutoramento na USP.


[1] Em 1977, a informação do Banco Mundial de que o governo da ditadura militar, então sob a presidência de Ernesto Geisel, havia manipulado a taxa de inflação de 1973 vazou para a imprensa. O DIEESE refez os cálculos da inflação, verificando uma perda de 34,1% no poder de compra dos salários dos metalúrgicos e de outras categorias de trabalhadores. A campanha para reposição salarial desse roubo surgiu das fábricas, como a Volkswagen que, mediante abaixo-assinado, forçaram a diretoria do sindicato a realizar assembleias para encaminhar a luta. Ver, a propósito, https://centrovictormeyer.org.br/o-passado-do-futuro-salario-minimo-politica-salarial-e-lutas-operarias-no-brasil/


[2] A crônica da greve de 1980 aqui utilizada está registrada na publicação “Aconteceu Especial - 1980: ABC da greve, maio de 1980”, publicação do CEDI – Centro Ecumênico de Documentação e Informação. In: MEMOV – Programa de Memoria dos Movimentos Sociais.


[3] Kátia Rodrigues Paranhos. Era Uma vez São Bernardo: o discurso sindical dos metalúrgicos - 292/2982. Campinas; Editora da Unicamp, 1999, p. 229


[4] Ver, a propósito, Sydnei Latini. A implantação da indústria automobilística no Brasil: da substituição de importações ativa à globalização passiva. São Paulo: Alaúde Editorial, 2007.


[5] Para melhor entendimento desse processo, ver “Entre a fábrica e o sindicato: os dilemas da oposição sindical metalúrgica de São Paulo (1967-1987) “, de Maria Rosangela Batistoni. Tese de doutoramento em Serviço Social, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo”.


[6] A contribuição de Rosa Luxemburgo em sua polêmica com Lenin no ano de 1904, foi analisada por nós em “O reformismo no movimento operário: A polêmica de Rosa Luxemburg com Lenin em 1904”, disponível em:


Imagem de capa: site sindserv


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