O preço inaceitável da farda
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O blog Encontraponto, procura ser, mediante autoria ou reprodução de textos, um encontro entre os diversos pensadores situados no campo do materialismo histórico. Nesse sentido, divulgamos o pequeno ensaio “O preço inaceitável da farda”. de Noa Silveira, originalmente publicado em Bandeira Vermelha. O que torna essa reflexão sobre o recrutamento militar importante é por trazer ao lume, na análise dos seus diferentes aspectos, como o militarismo e a dominação burguesa avançam ao par. .
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Ao nosso ver, a principal característica do ensaio é a de que o Exército procura “capturar os setores mais precarizados e vulneráveis, através da chantagem financeira ”. Se bem entendemos, significa referir-se à juventude das classes trabalhadoras. Noa Silveira assinala a resistência e desinteresse por parte dela, a quem a campanha oficial se dirige. Ressaltemos o fato do serviço militar em Portugal ser voluntário. A luta contra o recrutamento militar nem por isso deve arrefecer, como Noa Silveira adverte na conclusão. Acrescentemos que, devido ao baixo crescimento econômico das economias capitalistas, o desemprego na Europa tende a falar mais alto. Que a ideologia burguesa de defesa da nação domina, mesmo de modo contraditório: pode-se recusar a entrar na fila dos candidatos a um salário militar por saber que as forças armadas não têm recursos, implicam-se em corrupção e são o reinado da burocracia, e, ainda assim, cultivar o espírito da unidade nacional na farda, tendo a abnegação como índole e a hierarquia e a disciplina enquanto seus requisitos. A contradição resolve-se na luta. Indispensável pois discernir, nas contradições da sociedade burguesa, a possibilidade da luta de classes conforme os interesses dos trabalhadores.
João Ferreira
Noa Silveira*
Nas salas de espera do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), o ruído habitual da burocracia e a ansiedade desanimada de quem procura trabalho têm sido interrompidos por uma presença intrusiva. As sessões de esclarecimento do exército, que dantes se limitavam a eventos esporádicos, converteram-se numa ofensiva a tempo inteiro, ocupando aquele espaço das 9h às 17h.
Neste ano de 2026, a urgência não é casual. Sob a pressão do atual panorama geopolítico mundial associado, na Europa, ao prolongamento do conflito na Ucrânia e ao reforço da presença militar portuguesa na Roménia, o Estado vê-se obrigado a acelerar a engrenagem. A razão desta investida é clara: o exército está a levar a cabo um esforço financeiro e propagandístico sem precedentes para captar a juventude precarizada e desempregada. No entanto, esta máquina de persuasão esbarra de frente no desinteresse e no ceticismo profundo da maioria daqueles que são forçados a escutar.
EXÉRCITO QUER ATRAIR JUVENTUDE DESEMPREGADA
A propaganda militar opera através de uma estética sofisticada, desenhada para higienizar a brutalidade da guerra. O tom dos vídeos promocionais e as apresentações em PowerPoint exibidas no IEFP apelam a um nacionalismo exacerbado. Exalta-se a pátria, o culto à bandeira e a submissão disciplinada ao Estado, tentando ressuscitar um romantismo bélico que há muito perdeu eco.
Esta retórica da guerra modernizada vive de contradições flagrantes. Ao mesmo tempo que o discurso oficial suaviza as intervenções no estrangeiro (catalogando-as como mera “mitigação de conflitos” na República Centro-Africana ou em Moçambique), o orgulho institucional desloca-se para a exibição de recursos destrutivos. Celebra-se o investimento em “novas armas e novas viaturas”. Tenta-se vender uma imagem de missões humanitárias enquanto se exibe o material necessário para a geopolítica de rapina e para a defesa dos interesses económicos da burguesia internacional sob a capa do “interesse nacional”.
A ARMADILHA DA “DIFERENÇA”
O coração ideológico da campanha sintetiza-se num slogan explícito, repetido como um mantra: “Mereces mais que um emprego — mereces fazer a diferença”.
Esta formulação encerra uma perversidade profunda. Ao afirmar que o jovem desempregado “merece mais que um emprego”, a propaganda militar capitaliza diretamente sobre a crise social e a destruição dos direitos laborais que a própria burguesia promove no mercado de trabalho civil. O Estado reconhece implicitamente que os empregos disponíveis para a juventude são precários, mal pagos e alienantes. Em vez de oferecer trabalho digno, utiliza essa miséria generalizada como alavanca.
O apelo a “fazer a diferença” serve assim para preencher o vazio existencial e a falta de perspetivas gerados pelo capitalismo. Transforma-se o recrutamento de carne para canhão num ato de suposta auto-realização e altruísmo. A “diferença” que o Exército propõe não é a melhoria das condições de vida dos jovens trabalhadores, mas sim a disposição para matar ou morrer na salvaguarda de rotas comerciais, recursos estratégicos e alianças imperialistas que em nada beneficiam quem veste a farda.
O “MERGULHO” NOS NÚMEROS
Para compensar o vazio do discurso patriótico, o exército recorre ao suborno financeiro. O contraste histórico é evidente: se em 2024 um praça no escalão mais baixo auferia um valor vergonhosamente próximo do salário mínimo nacional (sofrendo ainda mais perdas durante o período de formação), os dados de 2026 refletem uma subida salarial muito significativa. Perante a escassez crónica de voluntários, o capital viu-se obrigado a encarecer o preço da força de trabalho militar.
A estrutura de carreiras apresentada nos panfletos divide-se claramente por critérios de classe e instrução escolar:
– Praças (18-24 anos, 9º ano mínimo): Destinados à base da pirâmide e às tarefas de maior exposição física. Operam em regimes de voluntariado (1 ano) ou contrato (até 6 anos, expandindo-se até aos 14 anos).
– Sargentos e oficiais (12º ano ou ensino superior): Destinados a funções de chefia e supervisão, com acesso facilitado aos quadros permanentes.
Como engodo para capturar os filhos do povo que ambicionam estudar, o exército exibe incentivos: propinas pagas no ensino superior, descontos em transportes públicos e assistência médica própria. Surge ainda o curioso apoio à criação de negócios pós-serviço, tentativa explícita de aburguesamento ideológico, instigando o sonho do empreendedorismo e da transformação do ex-militar num patrão Além disso, a promessa de estabilidade futura assenta num sistema rígido de quotas: 35% das vagas reservadas nas Forças Armadas e 30% nas forças de segurança (GNR e PSP), canalizando os jovens para o aparelho repressivo do sistema.
O DESFASAMENTO DO SISTEMA
Quando a propaganda desce à realidade das salas do IEFP, o desfasamento torna-se ridículo. A radiografia dos convocados revela um público-alvo composto por jovens dos 18 aos 24 anos, a esmagadora maioria detentora do 12º ano, empurrada para ali pela falta de alternativas económicas estáveis.
A ânsia de preencher estatísticas resulta em absurdo burocrático absoluto. O caráter cego do sistema de convocatórias automáticas fica ilustrado por casos vergonhosos de cidadãos convocados que violam todos os critérios de elegibilidade, como o exemplo de uma mulher de quase 50 anos, a sofrer de fibromialgia, condição médica crónica e altamente incapacitante, notificada para comparecer numa sessão de recrutamento. Esta falta de filtragem elementar desmascara uma máquina estatal que não vê indivíduos, mas sim números num ecrã, operando no limite para tentar estancar a sangria de uma instituição que conta atualmente com apenas 14.213 militares ativos no total, a maioria concentrada na base de praças.
RESISTÊNCIA E DESINTERESSE
Apesar do aparato e dos valores financeiros inscritos nos diapositivos, a resposta da juventude trabalhadora é um ato de rejeição silenciosa, mas categórica. O indicador empírico mais esmagador desta resistência está num detalhe observado nas sessões: numa sala cheia de potenciais recrutas, apenas uma pessoa aceitou levar o panfleto informativo no final da apresentação. Todos os outros materiais ficaram abandonados sobre as mesas.
Nos corredores do IEFP, longe do olhar vigilante dos oficiais, o eco das conversas revela alguma consciência. Alguns dizem com bastante convicção que não se vão juntar às fileiras. Discutem abertamente o absurdo de estarem ali detidos, sublinhando que nem sequer cumprem os requisitos mínimos de aptidão física ou psicológica.
CONCLUSÃO
A insistência diária do IEFP e o aumento galopante dos orçamentos de defesa não são fenómenos isolados: são a engrenagem local da militarização progressiva dos países membros da União Europeia e da NATO, que se prepara na iminência de um conflito global em larga escala. O que o Estado burguês procura nestas salas de espera é mão-de-obra barata e descartável para a frente de batalha.
Trata-se de uma tentativa de recrutamento com base económica e de classe: capturar os setores mais precarizados e vulneráveis, através da chantagem da sobrevivência financeira. Contudo, o desinteresse verificado no terreno demonstra os limites da intolerável “eficácia” ideológica. Os apelos ao patriotismo e os slogans moralistas não bastam para convencer uma geração a servir de carne para canhão em nome da concorrência entre os monopólios multinacionais e da hegemonia do imperialismo. em todos os seus matizes O exército pode modernizar as suas armas e adquirir novas viaturas para a guerra, mas o silêncio e os panfletos deixados pelo caminho acabam por servir de pré-aviso: a burguesia corre o sério risco de marchar com as fileiras vazias. E se este risco se verificar, o que vem a seguir não se resume a uma ofensiva propagandística: será o retorno do serviço militar obrigatório, como já se vê noutros países da Europa.
*Texto originalmente publicado no blog Bandeira Vermelha em 08 de junho de 2026.
Imagem de capa: site kursiv.


