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A reforma previdenciária de Macron e a guerra

No dia 15 de abril a TV A Comuna realizou o debate (live) “As lutas de classes na França e na Europa”, com a participação de Dominique Bernard, da organização trotskista Lutte Ouvrière, e Fernando Dillenburg, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Destacamos nesta postagem a intervenção de Bernard sobre as manifestações de massa contra a reforma previdenciária de Macron que, desde janeiro até o momento em que estava falando, constituíam um grande movimento que tinha levado às ruas entre 1 e 3 milhões de operários, trabalhadores, aposentados, estudantes e apoiadores. Seus comentários sobre os sentidos desse movimento e das razões da atitude governamental serão aqui resumidos com as nossas palavras.


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A lei da reforma previdenciária encaminhada pelo governo Macron no início de 2023 – que aumentou de 62 para 64 anos a idade necessária para a aposentadoria – provocou uma grande revolta nos trabalhadores. Na medida em que o governo negou-se a ouvir as centrais sindicais, passando literalmente por cima delas, provocou uma reação organizada em todo o país. A atitude governamental se sobrepôs a um descontentamento generalizado com o aumento do custo de vida e das perdas salariais, mas a questão previdenciária galvanizou os protestos. Também aconteceram greves, como a dos ferroviários de certas regiões ou em empresas, como refinarias de petróleo. Mas a tônica são as manifestações de rua. Contudo, apesar desse caráter massivo e de sua duração (três meses) não podem ser caracterizadas como parte de um processo explosivo, porque não colocam o poder em questão.


Foram organizadas pelas centrais sindicais sobretudo porque elas foram desprezadas pelo governo, que se recusou a conversar com elas apesar da sua disposição em negociar. A essa altura, poucos acreditam numa possível vitória da luta contra a reforma. Porque as manifestações não acontecem numa onda de politização semelhante a que aconteceu em maio de 1968. O Partido Comunista Frances e o movimento político França Insubmissa, liderada por Jean-Luc Mélanchón, que dominam a esquerda oficial, estão acomodados no sistema capitalista e não acreditam na força do proletariado.


A atuação da L.O. tem sido a de participar das manifestações, sem criticá-las pelo movimento em si, apesar da despolitização; muito mais, procura apontar e explicar seus limites, preparando os trabalhadores para o provável recuo das centrais que sequer levantaram o problema do custo de vida e das condições de trabalho, que combatem o governo sem apontar para os patrões, a quem a medida de aumentar a idade de aposentadoria beneficia. A palavra de ordem de propaganda “aumentar o salário e não a idade de aposentadoria” afirmada pela L.O. tem sido bem aceita entre os manifestantes.


Apesar da receptividade, Lutte Ouvrière é uma organização desconhecida. A classe operária pouco sabe a respeito de sua atuação no cenário político francês há mais de 50 anos. O motivo é a falta de interesse político, uma vez que quando não se procuram soluções para os problemas da classe também não se buscam alternativas.


Por que Macron decidiu atropelar os sindicatos se havia perspectiva de acordo? A escolha de impor uma medida deve-se provavelmente ao fato do governo pretender a mobilização do povo francês para a guerra, o que fica evidente no aumento enorme do orçamento para a defesa [1], nas reclamações dos capitalistas das fábricas de equipamento militar de não poderem produzir o bastante e também no projeto de serviço militar para a juventude.


Para concluir: um debate como o da TV A Comuna com a participação de Dominique Bernard deve ter um tom coloquial, por isso mesmo atraente diante da dureza da vida. Como falar da tragédia que se abate sobre os trabalhadores diariamente sem alguma troça, uma tirada diferente?


Para uma análise mais sistematizada do movimento transcrevemos aqui o final do artigo “Pensões: três meses de greves e de manifestações”, do número 231 de Luta de Classes:


No momento, é Macron quem cristaliza a maior parte do ódio e do ressentimento. Mas podemos esperar que a classe trabalhadora se alimente da experiência dos movimentos que abalaram o mundo do trabalho nos últimos anos sem ter invertido o curso das coisas: respostas a ataques anteriores às pensões, às leis trabalhistas ou ao movimento de coletes amarelos. Ela é capaz de tirar a conclusão de que só pode vencer com greves poderosas, generalizadas e autocontroladas que atacarão os lucros e o poder daqueles que realmente dirigem a economia: os grandes empregadores, banqueiros, financeiros, ou seja, os que ditam o seu roteiro a Macron e, amanhã, ao seu sucessor...


Nesta perspectiva, as forças dos revolucionários são muito fracas para serem decisivas e desempenharem um papel real no momento atual. Por outro lado, a situação, as discussões que elas permitem, a visão e as consciências que elas abrem devem permitir que nossas ideias encontrem eco em uma fração da juventude e da classe trabalhadora mobilizada. Será uma garantia preciosa para as lutas que virão.

(Os grifos são nossos)


26 de março de 2023


Sugerimos que a análise das relações de forças entre as classes na França seja comparada à apresentada pela Arbeiterpolitik em 1 de abril de 2023 e traduzida por nós no Encontraponto.


Antônio João



[1] Ecos da guerra na Ucrânia e ao papel do eixo germânico-francês no seu enfrentamento pelo lado da OTAN. “Em 22 de maio, a Assembleia iniciou o exame da lei de programação militar (LPM) para o período 2024-2030. Fala-se em aumentar o orçamento militar em 100 bilhões de euros em seis anos para chegar a 413 bilhões, alcançando 2% do PIB. (...) Quando se trata de militares, a dívida pública não existe.” Extraído de Lutte Ouvrière de 24 de maio de 2023.

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