As eleições burguesas no primeiro turno de 2026: resultados e análise
A eleição de 04 de outubro de 2026 representou uma vitória histórica da extrema-direita no Brasil, do outro lado a centro-esquerda, tendo à frente o Partido dos Trabalhadores, sofreu uma derrota acachapante. O Bolsonaro filho, talvez com todo o ódio acumulado, declarou que o fim da Era do PT havia chegado. Uma análise objetiva e racional indica que neste ano fecha-se um ciclo, pois o PT não consegue apresentar soluções para os problemas da maioria que trabalha, nem recuperar a contento, os interesses das classes dominantes, principalmente, quanto a taxa de lucro e as condições para a expansão sustentada da acumulação de capital.
Colocar a derrota na conta das redes sociais não é conclusão inteligente nem eficiente. Elas podem ter desempenhado algum papel, contudo, não foram determinantes. Desempenhos dessa natureza não cabe em simplificações grosseiras. Da mesma forma que a vitória petista de 2022 não pode ser explicada pelas urnas eletrônicas, não se pode explicar a fragorosa derrota de 2026 pelas redes sociais. Pior é acusar o eleitor de votar contra seus próprios interesses, pois cada um define melhor que os “sábios” de plantão o que são seus interesses. Ficar amuado porque o eleitor é ingrato é outro erro primário, dado que a pessoa média não está obrigado a este sentimento, tão exigido nas relações familiares ou de amizade. Contudo, não na política.
A candidatura de Flávio Bolsonaro não se construiu com a hipocrisia, como argumenta grupos de esquerda, nem com o discurso da moralidade, mas com uma base social herdada do passado recente nas costas de uma esquerda que abandonou as classes trabalhadoras à própria sorte. A candidatura de 'zero um' se consolida no vácuo de uma combinação equivocada entre a falta de projeto de longo prazo e a inexistência do fator esperança. Mais do mesmo; não conseguiu empolgar as pessoas comuns.
Os (as) trabalhadores (as) não comem ideologia, mas feijão, arroz e carne (bife) que, segundo os nutricionistas, é um prato que fornece boa parte dos nutrientes necessários para um ser humano adulto. A burguesia, também, não decide seu voto por ideologia. Na verdade, as classes dominantes não são por princípio nem democráticas nem autoritárias; elas se posicionam através de uma análise de conjuntura de média duração e sempre em defesa de seus interesses mais importantes. Se um Governo, qualquer governo, retira pessoas da linha extrema da pobreza não pode esperar gratidão eterna. É possível gratidão no início, mas depois essas pessoas querem mais: querem saúde para si e para a família, querem educação para os filhos, querem melhorias no padrão de vida, querem emprego formal.
A extrema-direita venceu os executivos de Estados importantes que correspondem 65% do PIB nacional e a metade da população brasileira, ou seja, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Dos 21 eleitos, 18 são de direita, e apenas três são do PT. Quanto ao Senado, o resultado foi desastroso, com o PL da família Bolsonaro contando, a partir de 2027, com 28 assentos, o que corresponde a mais de 1/3 da casa. Desse modo, a Direita contará com, dependendo da pauta, entre 62 e 66 com média de 64 votos, enquanto o PT terá entre 15 e 19, com média de 17 votos. Significa que a direita pode reformar a Constituição e impedir ministros do STF. Na Câmara dos Deputados o resultado não é melhor, pois enquanto o PL fez 121 cadeiras, o PT conseguiu fazer 88. No computo final temos 395 assentos de direita e 118 do que se deve denominar de centro-esquerda.
Foram derrotadas personalidades petistas ou aliados como em São Paulo, onde a carreira eleitoral do ministro Fernando Haddad foi enterrada pela vitória indiscutível de Tarcísio de Freitas; em Minas Gerais, Patrus Ananias foi batido pelo inexpressivo Cleitinho com mais de 2/3 dos votos; no Rio Grande do Sul, foi derrotada a herdeira do brizolismo, Juliana Brizola (PDT). Outros perdedores foram Gleisi Hoffmann do Paraná, Paulo Pimenta do Rio Grande do Sul, Jorge Viana (Acre); entre os senadores, Randolfe Rodrigues do Amapá, Fabiano Contarato do Espírito Santo) e a militante histórica do PT e ex-senadora Benedita da Silva do Rio de Janeiro. Também foram derrotadas Simone Tebet e Marina Silva, ambas na eleição paulista e Manuela D’Ávila no Rio Grande do Sul.
Do que se pode inferir, o eleitor médio, incluindo aquele das classes trabalhadoras, votou de acordo com suas percepções dos resultados da política econômica. Como apresentado na tabela abaixo, a economia vista pelo governo vai muito bem, mas aquela percebida pelas classes trabalhadoras que o governo diz representar vai, ao contrário, muito mal.
Vamos analisar as principais variáveis macroeconômicas.
No longo prazo desde 1996 até o presente, a taxa de investimento só ficou acima dos 19,00% durante os sete anos que vão de 2008 a 2014, depois desse último ano vai ao fundo do poço em 2017 com 14,60% e se eleva lentamente até atingir o valor de 17,90% em 2017, caindo novamente até atingir 16,90% em 2025. Não é possível uma política permanente de distribuição de renda sem crescimento forte e sustentado do produto e este depende do investimento (acumulação de capital). No curto prazo, "a melhor situação para a classe operária é quando a acumulação de capital se acelera".[1]
Gráfico 01 - Taxa de Investimento no Brasil – 1996/2025

Uma rápida observação do gráfico 02, abaixo, mostra uma realidade que os ufanistas do PT não enxergam ou fingem não enxergar. A economia brasileira tem uma taxa de investimento de 52,8%, enquanto a dos países de renda alta, alcança 68% da taxa mundial. A comparação também é negativa quando examinada no contexto da América Latina e Caribe: o percentual brasileiro situa-se a menos de 3,2 pontos. A situação brasileira é muito grave quando consideradas as baixas taxas de crescimento da economia capitalista mundial (exceto da China) e a aflitiva situação da América Latina (no qual se deve observar o desastre do governo de Javier Milei).
Gráfico 02 - Taxa de Investimento Brasil versus conjunto selecionados de países (em %)

Fonte: FGV-IBRE https://blogdoibre.fgv.br/posts/fbcfpib-como-estamos-em-relacao-ao-mundo-em-taxa-de-investimento
Nota: UMIC: países de renda média-alta; HIC: países de renda alta
A tabela 01, abaixo, mostra que, em 2018, o comprometimento do comprometimento do salário com a compra da cesta básica era menor que 50% e correspondia a pouco mais de 100 horas de trabalho/mês. No último ano do governo Jair Bolsonaro aquela relação chegou a um pico de quase 70% (69,2%) e um total de horas trabalhadas de 143horas e 35 minutos. Em 2026 o valor de comprometimento salarial baixou, mas não recuperou o valor de 2018, continuando acima de 50% (55,6%).
A cesta básica que regula os salários no Brasil é praticamente a mesma da Revolução Industrial. No Brasil, a cesta básica de alimentos varia conforme o critério (histórico/DIEESE ou a nova regulamentação federal e estadual), sendo composta por mercadoria, como essenciais (alimentos), assim itens como vestuário, educação, saúde e equipamentos como o celular, que os ideólogos capitalistas dizem que o sistema colocou nas mãos de todos fica de fora da cesta que mede suas necessidades.
Tabela 01 - Salário-Mínimo versus Cesta Básica 2018–2026
Ano | Salário-Mínimo Nominal | Valor Médio da Cesta (SP) | Comprometimento do Salário | Horas de Trabalho Necessárias |
2018 | R$ 954,00 | R$ 440,00 | 49,5% | 101h 45m |
2019 | R$ 998,00 | R$ 506,50 | 54,8% | 111h 38m |
2020 | R$ 1.045,00 | R$ 621,00 | 63,9% | 130h 47m |
2021 | R$ 1.100,00 | R$ 690,50 | 67,6% | 138h 12m |
2022 | R$ 1.212,00 | R$ 791,00 | 69,2% | 143h 35m |
2023 | R$ 1.320,00 | R$ 766,00 | 62,5% | 127h 40m |
2024 | R$ 1.412,00 | R$ 826,00 | 62,2% | 128h 35m |
2025 | R$ 1.518,00 | R$ 860,00 | 60,7% | 124h 40m |
2026 | R$ 1.621,00 | R$ 900,59 | 55,6% | 122h 00m |
Fonte: Dieese e IBGE
Notas:
O cálculo da cesta é feito pelo DIEESE e tem por base uma cesta básica tradicional definida pelo Decreto de 1938
O cálculo de horas toma como base a jornada constitucional padrão de 220 horas mensais.
A tabela 2, abaixo, nos mostra o comportamento do emprego [2]. No governo de Jair Bolsonaro a taxa de desemprego se elevou para 13%, caindo no último ano de seu governo (2022) para 9,3%. No terceiro governo de Lula a taxa sofreu quedas sucessivas até atingir a menor taxa histórica desde 2012, segundo o IBGE, de 5,1%, em 2025.
Cabe destacar que, em agosto de 2026, o valor se eleva para 5,3%. As causas do aumento do desemprego são as mesma do baixo crescimento do PIB, isto é, a taxa de juros muito alta e a retirada de subsídios. Para 2027, o FMI projeta 6,8% com tendência de médio prazo para elevação.
É preciso ter cuidado com os economistas, em primeiro lugar, porque eles estão tão longe da neutralidade quanto “o diabo da cruz”; em segundo, pelo fato das medições terem ocorrido depois que os fatos acontecem. Assim, as sensações são mais atuais que as medidas.
Tabela 2 - Taxa de desemprego 2018-2026
Ano | % | Características do período |
2018 | 12,3% | Ano pré-pandemia |
2019 | 11,9% | Governo Bolsonaro |
2020 | 13,5% | “ |
2021 | 13,2% | “ |
2022 | 9,3% | “ |
2023 | 7,8% | Governo Lula 3 |
2024 | 6,8% | “ |
2025 | 5,1% | “ |
2026 | 5,3% | “ |
Fonte: IBGE
Chegamos então ao aspecto final dessa análise: o efeito político da situação econômica tal como vivenciada pela maioria da população num ano de eleições gerais.
O gráfico 3, abaixo, mede e quantifica a chamada aprovação líquida (que é a diferença entre a aprovação e a desaprovação), que em todo este ano sempre esteve negativa, com exceção de um breve período entre zero e um, chegando inclusive o valor de mínimo local de - 9).
Um governo que no ano eleitoral é avaliado como mostrado no gráfico abaixo precisa fazer uma reflexão honesta e não se deitar sobre supostos sucessos. Quem não apenas aceita [3], mas elogia as regras da democracia burguesia como as melhores possíveis, precisa aceitar os dados que explicam o comportamento do eleitor.
Gráfico 03 - Taxa Líquida de Aprovação Governo do Terceiro Lula

Fonte: Cem Flores, 10 de outubro de 2026.
A nós, cabe interpretar esse comportamento do eleitor, com o foco nos trabalhadores. O assunto será desenvolvido depois dos resultados da eleição presidencial no 2º turno.
Gabriel Lima
22 de outubro de 2026
Notas:
[1] Dentro da perspectiva da própria dinâmica capitalista, esse cenário é considerado o "melhor" porque o crescimento rápido do capital gera uma maior demanda por força de trabalho. Em períodos de expansão econômica acelerada, a necessidade de contratar novos braços pode elevar temporariamente os salários e reduzir as taxas de desemprego.
[2] A taxa de informalidade atual no Brasil é de 37,5% da população ocupada, de acordo com os dados mais recentes do IBGE (PNAD Contínua) divulgados para o trimestre encerrado em agosto de 2026. Esse percentual equivale a um contingente de 38,8 milhões de trabalhadores informais no país. Embora o mercado de trabalho venha registrando recordes de contratação com carteira assinada, o patamar da informalidade é considerado estrutural e tem mostrado estabilidade com oscilações muito leves ao longo do tempo.
[3] O presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma declaração afirmação, destacando que “foi a força do regime democrático que viabilizou a eleição de um torneiro mecânico à Presidência da República”. Instituto Lula, 18 de outubro de 2026.
Imagem de capa: "Raboteurs" (raspadores de piso) 1875, de Gustave Caillebotte (pintor francês 1848-1894).

