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I Hate the Capitalism System - a contribuição de Barbara Dane

A música de protesto nos Estados Unidos tem uma longa e extensa história. Nosso propósito aqui é divulgar o trabalho de Barbara Dane, uma cantora de blues branca que desempenhou um papel significativo nesta cultura, e aproveitar para falar um pouco da tradição socialista norte-americana.¹


Filha de um farmacêutico² de Detroit, Barbara Dane tentou "cantar ópera, oratórios e todo aquele jazz" quando tinha acabado de sair do ensino médio, "mas senti que não combinava comigo", disse. Enquanto isso, dominou algumas canções folclóricas e, como "ninguém mais na cidade as conhecia", logo se viu dedilhando e cantarolando para a glória do trabalho organizado: "Devo ter cantado em todos os piquetes que o UAW promoveu."


A beleza de sua voz, comparada à de Bessie Smith e chamada de “gasser” por Louis Armstrong, projetou-a nacionalmente como uma cantora de blues e de jazz.


Reproduzimos a seguir a Dedicatória de Barbara Dane feita aos trabalhadores, à sua irmã Julia e à memória de Sara Ogan no disco I Hate the Capitalism System:


Esta gravação é respeitosamente dedicada aos milhões de trabalhadores que realmente tornaram a América grande, com a certeza de que um dia eles reunirão sua força, sua coragem e sua sabedoria e se unirão para esmagar este decadente e moribundo sistema. Eles usarão sua inventividade e diligência para elevar todo o nosso povo a um padrão de vida decente e restaurar-nos a um lugar de respeito entre a irmandade das nações. Eles são os criadores da história e construirão o futuro socialista.


Especificamente, quero dedicar essas canções à minha irmã, Julia, que recentemente ingressou naquela grande escola da vida, a classe trabalhadora industrial. Ela já aprendeu que é muito mais do que a dona de casa tímida e ignorante que pensava ser e mais do que a escriturária e vendedora mal paga e isolada que tinha que ser. Agora ela sabe que pode operar máquinas poderosas e perigosas, pode pensar em seus problemas e falar contra qualquer um que ameace seu direito de trabalhar e viver. Todos os dias, uma nova sabedoria, uma nova força e beleza crescem nela porque ela não está mais sozinha. Ela faz parte dos milhões.


Quando Sara Ogan escreveu essa música, ela havia acabado de vivenciar a perda de sua mãe e de seu bebê, e seu marido estava morrendo de tuberculose. Foi na década de 1930, na parte de Kentucky onde as batalhas históricas para organizar os trabalhadores das minas eram travadas, no auge da pior depressão do país. Sua meia-irmã, tia Molly Jackson, seu irmão Jim Garland e a própria Sara escreveram as canções mais fortes, claras e raivosas que surgiram naqueles tempos.³


Aqui está o que Woody Guthrie escreveu sobre Sara:


(Suas canções) são mais mortais e mais fortes do que balas de fuzil e cortaram uma faixa mais ampla do que uma metralhadora poderia…


Sara amava seu marido. Ele morreu devido ao trabalho duro nas minas. Ela amava seu bebê que morreu. Ela ama os dois que ainda tem e odeia o sistema que destruiu sua família. Odeia a armadilha que roubou a vida de seus filhos. Odeia as armas de guerra que apontam para suas canções e filhas. Odeia todos esses grandes vigaristas e ricos gananciosos. A razão é porque ela ama o que ama e lutará para proteger seu lar.


(Os grandes ricos) afirmam que são donos de tudo isso. Sara diz que não. Sara diz que pertence igual a todos nós. Eu digo que Sara está certa. Essa maldita costa não pertence a nenhum cara especial, nem a nenhuma família especial, nem a poucas famílias especiais. Pertence igualmente a todos nós. Eu e você. Nós.


Eu canto essa música sempre que posso porque concordo com ela, de todo o coração.”



Sarah Ogan


A interpretação de Barbara Dane, baseada num velho vinil arranhado e cheio de sibilos, não é substancialmente uma versão diferente de "I Hate the Capitalist System" (título e canção que, pelo menos na época nos Estados Unidos, tinha força de uma blasfêmia), mas tem mais versos…


I hate the capitalist system,

And I will tell you the reason why:

It has caused me so much suffering,

And my dearest friends to die.


Well I know you all are wondering

What it has done to me.

Well I am going to tell you

That my husband had TB


Brought on by hard work and low wages,

And never enough to eat,

And going raggedy and hungry,

With no shoes upon his feet.


I guess you'll say he's lazy,

An' did not want to work.

But I must say you're crazy,

For work he did not shirk.


My husband was a coal miner

Who worked hard and risked his life,

Just trying to support three children,

Himself, his mother and wife.


I had a blue-eyed baby

the darling of my heart.

But from my little darling

Her mother had to part.


The rich and mighty capitalist

Goes dressed in jewels and silk,

My darling blue-eyed baby

Has died for the want of milk.


I had a darlin' mother,

For her I often cry.

But with them rotten conditions

My mother had to die.


Well, what killed, what killed your mother?

Oh tell us if you please.

Well, it was old pellagra,

That starvation disease.


Well they call this the land of plenty,

And to them I guess it's true,

For the rich and mighty capitalist,

Not for workers like me and you.


Oh what can we do about it

To these men of power and might?

Well I tell you, Mr. Capitalist,

We are going to fight, fight, fight.


(Destacamos em cor vermelha os versos acrescentados)


Barbara Dane


1 Quanto à tradição socialista interessa também apontar a influência marxista do seu interior, mais forte no início do século XX, como chama atenção Leo Huberman no artigo “O jeito de Debs”. A luta entre o estalinismo e o trotskismo que consumiu a Internacional Comunista nos anos 1930-1940, com trágicas consequências pelo mundo afora e enfraqueceu o movimento socialista nos EUA, principalmente durante a Guerra Fria (1946-191). A influência marxista norte-americana, não filiada a qualquer dessas duas correntes, foi notável na esquerda revolucionária brasileira dos anos 1960, dada a repercussão da revolução cubana entre nós, processo examinado por Leo Huberman e Paul Sweezy na obra Cuba: Anatomy of a Revolution, 1960, imediatamente traduzida para a língua portuguesa como Cuba: Anatomia de uma Revolução, em 1960.


Leo Huberman (1903-1968) e Paul Sweezy (1910-2004) fundaram a Monthly Review em 1949. No momento em que a revista começou a circular Huberman já tinha publicado We, the People: the Drama of America, em 1932 e Man’s Worldly Goods: The Story of the Wealth of Nations, em 1936. A primeira apresenta uma compreensão histórica do capitalismo e das lutas de classe dos trabalhadores nos Estados Unidos e foi traduzida pela Editora Brasiliense como História da Riqueza dos EUA (Nós o povo) em 1978; a segunda teve extraordinária importância na formação dos mili-tantes das diferentes correntes da esquerda revolucionária no Brasil, publicada como História da Riqueza do Homem no Brasil pelo menos desde 1965. O livro pode ser baixado aqui. Paul Sweezy, por sua vez, publicou seu ensaio The Theory of Capitalism Development em 1942.


2 Na verdade, dono uma pequena drogaria num bairro operário de Detroit nos anos da Grande Depressão.


3 Para conhecer a história do capitalismo e das lutas de classe dos trabalhadores nos Estados Unidos recomendamos o livro Nós, o povo, de Leo Huberman, traduzido pela Editora Brasiliense como História da Riqueza dos EUA (Nós, o povo) em 1978. Um pouco dessa história da luta dos mineiros nos chegou recentemente pelo romance O Poço e a Mina, de Gin Phillps. Publicado em 2007 (no início da crise econômica nos Estados Unidos) e traduzida pelo editora Amarylis no Brasil em 2011, o livro constitui uma narrativa ficcional dessa situação em que viviam os mineiros negros e brancos pobres em Carbon Hill, Alabama, durante os anos da década de 1930. Transcrevemos um trecho para você ler aqui.


4 Na guitarra de Guthrie estava escrito: This Machine Kills Fascists.



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