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A vantagem chinesa e o novo ataque do capital contra os trabalhadores na fabricação de VE

A luta pelo contrato coletivo e a sindicalização dos trabalhadores no sul dos Estados Unidos, onde se concentra a fabricação de veículos com motor elétrico (VE), constitui a maior desafio a ser enfrentado pela United Auto Workers (UAW). Foi o que disse o seu presidente, Shawn Fain, durante a longa greve contra as 3 grandes da indústria automobilística, no final de 2023. Na recente paralisação contra a Tesla na Suécia, o desafio foi colocado no "imediatamente" e não no longo horizonte temporal de quatro anos, como encaminhado pelo dirigente sindical.


Na realidade, o problema está, no momento, situado em escala internacional, nos países onde se concentra o capital da Tesla na produção de veículos de motor elétrico, a saber, nos Estados Unidos, na Alemanha e na China. A empresa retoma a tradição da Ford Motors Company, que só aceitou o sindicato após décadas de luta, em meio à II Guerra Mundial. O presidente da Tesla é um sucedâneo de Ford, com sua alegada liberdade do capital contratar individualmente a força de trabalho em suas condições, oferecendo em troca um salário aparentemente mais elevado e acima da média vigente no mercado, em qualquer país.


A IF Metall, federação metalúrgica sueca, contra-argumentou afirmando que os salários pagos pela Tesla são inferiores à média do Acordo da Indústria Automóvel, além dos trabalhadores não terem jornada de trabalho reduzida e tampouco um pacote completo de seguridade. Porém, mais importante: sem acordo coletivo, os aumentos salariais anuais não estariam garantidos. Na base da luta dos 130 mecânicos de manutenção da empresa neste país, atraindo a solidariedade dos portuários e dos Correios inclusive além das fronteiras (Dinamarca, Noruega, Finlândia), estaria a defesa do “modelo” de contratação nórdico. Ou seja, um sistema fundado em normas, com elevadas taxas de sindicalização, negociação setorial e pouca regulamentação (não existe, por exemplo, salário mínimo na Suécia, uma vez que a maioria dos empregadores simplesmente paga os salários acordados nas negociações com os sindicatos).


A situação obrigou inclusive a IG Metall, federação metalúrgica alemã, a abandonar a posição liberal de atribuir a responsabilidade de qualquer ação às bases da Tesla na Gigafactory Berlin-Brandenburg e se ocultar por detrás da proibição legal à solidariedade internacional. Mesmo assim, deu um passo mais simbólico do que real, ao sindicalizar publicamente 1.000 operários da empresa. [1]


O avanço da produção de veículos elétricos (VE) tensiona as relações entre capital e trabalho porque a concorrência internacional se agudizou com as vantagens dos fabricantes chineses. De acordo com a revista The Economist de 11 de janeiro de 2024, na matéria “As empresas ocidentais estão tremendo com a aceleração do setor de carros elétricos da China”:


O sedã da NIO, uma montadora chinesa fundada em 2014, leva apenas quatro segundos para acelerar de 0 para 100 km/h. Isso é mais ou menos o mesmo que o Porsche Carrera, um carro esportivo alemão amado por viciados em adrenalina. Os veículos elétricos chineses (VEs) estão estabelecendo novos padrões de velocidade – em termos de quão rápido eles vão e de quão rápido eles estão se espalhando pelo mundo. As ruas da China já estão entupidas com elas. E, se os fabricantes chineses conseguirem o que querem, os Estados Unidos e a Europa também serão. Uma indústria usada para um ciclo calmo de melhorias marginais está sendo derrubada pela “velocidade da China”, diz Ralf Brandstetter, chefe da Volkswagen no país. Em 2023, grupos industriais chineses afirmam que a China ultrapassou o Japão para se tornar o maior exportador mundial de carros, em parte por causa das vendas crescentes de veículos elétricos. No último trimestre de 2023, a BYD, uma empresa chinesa, superou a Tesla como a maior fabricante mundial de veículos puramente movidos a bateria, vendendo 526 mil unidades, contra as 484 mil da empresa americana. Como a mudança do motor de combustão interna ganha ritmo, as montadoras estabelecidas estão começando a se preocupar que os iniciantes chineses possam jogá-los para fora da estrada.


A concorrência internacional se agudiza no setor e, por extensão, em toda a cadeia produtiva, porque, nos termos da Economia Política burguesa, a China está conseguindo reduzir os custos de fabricação do motor elétrico. Retraduzindo a frase na linguagem da crítica da Economia Política, importante é a redução dos “custos variáveis”, ou seja, aumentar a extração do trabalho excedente, a mais-valia, conceitos unificados politicamente na expressão exploração capitalista. Em torno da disputa pelo trabalho excedente se desenrola esse novo capítulo da acumulação de capital, isto é, da luta inter-capitalista /internacional promovida pelo grande capital do setor, com amplo apoio do Estado em matéria de impostos e crédito, repercutindo por todas as economias.[2] Certamente esta concorrência entre as empresas implica enfrentar os limites institucionais do sindicalismo e do mercado de trabalho regulado em cada país.


É o que aparece no caso da greve da Tesla. Porém, como advertiram Runa Møller Stahl e Jonas Algers no artigo da Jacobin sobre o caso, não se deve romantizar o “modelo sueco”, uma vez que “os sindicatos abraçaram amplamente a noção de que a sustentação do modelo nórdico requer um crescimento salarial contido abaixo dos níveis de produtividade, permitindo uma maior competitividade na cena internacional”. Ou seja, os sindicatos colaboram com o capital na exploração conjunta da força de trabalho, em nome do emprego e da proteção social, apesar dessa crença ter frágil sustentação dada a contestação prática dos capitalistas.


A tendência ao confronto ao invés da negociação emerge inclusive do fato de que a reação da Tesla teve o apoio da associação Swedish Enterprise, com o importante detalhe de que aquela empresa não faz parte deste sindicato patronal. A decisão da Swedish Enterprise de apoiar a Tesla significa que o estilo “fordista” de Elon Musk representa aquilo que em nosso país tem o nome de “mão do gato”, atrás do qual se posiciona o bando como um todo.


Para concluir citamos outra vez a matéria de Jacobin:


No cenário contemporâneo, o movimento sindical está predominantemente orientado para o envolvimento em negociações formais dentro de quadros jurídicos, em vez de adotar uma estrutura organizacional de base, enraizada na ação direta. Apesar dos precedentes históricos aparentemente favorecerem os trabalhadores suecos e nórdicos, persistem questões relativas à capacidade do movimento sindical de sustentar e vencer um conflito prolongado no local de trabalho.



[1] Ver IG Metal de 17 de outubro de 2023: IG Metall faz parte da Tesla https://www.igmetall.de/im-betrieb/ig-metall-organisiert-tesla-beschaeftigte

A Tesla permitiu a constituição de um conselho da empresa , embora controlado pela sua gerência. https://www.igmetall.de/im-betrieb/mitbestimmung/erste-betriebsratswahl-bei-tesla-gelungene-premiere


[2] Nos Estados Unidos o governo tem cada vez implementado a forma de capitalismo de Estado, assim como tem feito com a produção de chips, suscitando a crítica aberta do liberal The Economist.


*Capa: esboço sobre a obra de Elizabeth Olds. Miners, 1937. Original disponível em: https://www.hrc.utexas.edu/collections/art/

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