Eleições 2026: refletir e tomar posição
Introdução
No dia 4 de outubro de 2026 realiza-se a eleição para a Presidência da República, os governos estaduais e o Congresso Nacional. A forte oposição entre os dois candidatos ao cargo máximo do poder executivo, Lula e Flávio Bolsonaro, impõe o exame das relações de força entre as classes sociais, tanto no plano nacional como internacional.
De como a economia continua sendo a anatomia da sociedade civil, estúpido!
Uma análise de conjuntura, qualquer que seja o seu foco — no caso, as eleições de 2026 — precisa situar o panorama internacional do imperialismo em seu centro hegemônico. A inserção do Brasil em tal panorama é a de um país capitalista de periferia, integrado ao imperialismo sob a hegemonia norte-americana.
Inicialmente, temos de entender qual é o quadro econômico atual nos EUA dentro do qual o Brasil vai às urnas.
Em dois momentos fundamentais e críticos observa-se que Ronald Reagan (1981-1989) consolidou o neoliberalismo, a globalização capitalista e a liderança ocidental na Guerra Fria, enquanto Trump baseia-se no mais duro nacionalismo econômico (a América em Primeiro Lugar), no questionamento de qualquer multilateralismo, no enfrentamento à China e na política do porrete.
O Governo de Reagan está associado a uma forte expansão econômica, ao longo ciclo de crescimento dos anos 1980. Após uma recessão dolorosa inicial entre 1981 e 1982, a economia disparou. O PIB dos EUA cresceu a taxas superiores a 4% e até 7% ao ano em meados da década. As políticas econômicas que impulsionaram a economia estadunidense foram cortes profundos de impostos corporativos e individuais (reduzindo a alíquota máxima de 70% para 28%), desregulamentação de mercados e um aumento maciço nos gastos militares.
Décadas mais tarde, Donald Trump passou a enfrentar, no primeiro governo (2016-2020), uma forte depressão econômica, que remonta à crise de 2007-2008; o acirramento da crise com a pandemia de Covid-19 provocou uma contração econômica muito rápida em 2020. O desemprego atingiu a marca de 14,7% e o PIB despencou no segundo trimestre daquele ano. O governo respondeu com trilhões de dólares em pacotes de estímulo. Trump encerrou seu primeiro mandato com uma perda líquida de postos de trabalho e um forte aumento do endividamento público.
Atualmente, a economia dos Estados Unidos enfrenta fortes gargalos. A implementação de tarifas aduaneiras agressivas (elevação da tarifa média americana de 2,4% para patamares exorbitantes) teve como objetivo proteger a indústria nacional, porém, os dados apontam pressões no custo de vida, com impacto direto no consumo interno. Com a inflação persistente e os custos das tarifas repassados aos produtos, o Federal Reserve mantém uma postura rigorosa com as taxas de juros [1]. O PIB apresenta um ritmo de crescimento moderado (estimado em torno de 1,5% a 2%), enquanto o aumento acelerado dos rendimentos dos títulos públicos gera alertas no mercado financeiro sobre um potencial ciclo de desaceleração e endividamento severo.
É nessa complexa conjuntura econômica que o Brasil irá às urnas amanhã. O candidato de extrema-direita Flávio Bolsonaro prega um alinhamento ideológico direto e subserviente com a direita norte-americana e o Governo Trump, sob o argumento de combate e freio às intenções chinesas de avanço sobre o continente americano. O candidato de centro-direita, Luiz Inácio Lula da Silva, depois de tentar apaziguar Trump, diz defender a soberania nacional e combater as ações de Washington, afirmando que o “Brasil não é quintal de ninguém”. As posições oficiais do governo brasileiro em relação a duas violações graves do direito internacional por Trump, a saber, Venezuela e Cuba, caracterizam a posição de Lula como apenas instrumental e eleitoreira.
A soberania limitada pelo grande porrete dos EUA
Não se pode pensar na intervenção do governo Trump no Brasil tomando como referência a Venezuela, onde praticou uma política de saque, sequestrando seu presidente e controlando a principal fonte de riqueza do país: o petróleo. O Brasil, em contrapartida, é um país capitalista e, em que pese ser periférico, dispõe de uma base industrial, tem dimensões continentais, é organizado por um Estado burguês consolidado, sob um governo de centro-direita.
De qualquer modo, o apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro e a expectativa de sua vitória no Brasil fecha o cerco da América Latina pela grande potência e atalha a pretensão chinesa de exercer sua diplomacia econômica.
A América Latina já tem, no presente momento, maioria de governos de direita; o mapa está “pintado de marrom”, o que garante a influência do “grande irmão do norte” sem o uso do porrete. O alinhamento político pelo caminho eleitoral legitima a atual intervenção dos EUA. O Governo estadunidense sabe também que Lula é um conciliador e que, caso seja vitorioso nas eleições presidenciais, se comportará dentro das expectativas ditadas pela diplomacia.
Afirmar que o Brasil não é quintal de ninguém, como Lula fez, é uma verdade relativa desde a gestão da diplomacia pelo Barão do Rio Branco. Com a exceção da vergonhosa guerra contra o Paraguai, o Brasil tem se apresentado como um país pacífico que, dentro das condicionalidades da Doutrina Monroe apresenta posições independentes. Não se negou, contudo, a fazer o papel da mão que segurava o porrete contra a República Dominicana em 1965, enquanto integrante da Força Interamericana da Paz sob instâncias da Organização dos Estados Americanos (OEA); assim como contra o infeliz Haiti em 2004, com um mandato delegado pelo Conselho de Segurança da ONU quando os EUA ainda admitiam a chamada “globalização”. No Haiti, a intervenção militar brasileira ocorreu sob o governo do Partido dos Trabalhadores, tendo o timoneiro Lula delegando a ação ao seu imediato, o General Augusto Heleno — o qual seria, aliás, um dos líderes golpistas do ataque de 8 de Janeiro de 2023 à praça dos Três Poderes em Brasília.
O objetivo imediato dos Estados Unidos é constituir uma aliança antiterrorista que justifique a construção de bases militares em toda a América Latina, principalmente no Brasil, com sua vasta área continental com quase 900 mil quilômetros quadrados de fronteiras nacionais. Ao contrário do Barão de Rio Branco, que atuou entre 1902 e 1912 de modo diplomático, sem recorrer às guerras, a aliança antiterrorista liderada pelos EUA, pretende desenvolver uma guerra direta ao “narcoterrorismo”, aspecto principal da campanha de Flávio Bolsonaro sobre a segurança pública do Brasil.
A construção de uma rede militar de tamanha proporção, justificada pela necessidade de combater o “narcoterrorismo”, serve como uma luva para os EUA colocarem as suas mãos sobre os verdadeiros núcleos de poder nos países latino americanos, a saber, as Forças Armadas, o poder tutelar das democracias burguesas. Consagrar-se-ia assim o “corolário Trump” da doutrina Monroe.
A nota dos clubes militares sobre as eleições
No dia 3 de agosto de 2026, os clubes Naval, Militar e de Aeronáutica emitiram a nota intitulada “Riscos à Nação”. O documento traz como sempre a argumentação da “leniência com a corrupção” à qual se acrescenta a “tolerância com o crime” por parte do governo. A novidade está na afirmação de que o “desalinhamento” do Brasil em suas "relações bilaterais" produz um atraso econômico capaz de comprometer o futuro do país no concerto das nações “mais produtivas e competitivas”. Trata-se, portanto, de um “patriotismo econômico”, que mal disfarça o aprofundamento da integração do Brasil ao imperialismo norte-americano.
A “reação cívica” proposta no documento defende implicitamente um governo forte, talvez uma democracia burguesa nos moldes do que foi a presidência do general Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), pró-imperialista e anticomunista, instaurado eleitoralmente depois da queda do Estado Novo. A opção por este caminho passa pela identificação dos clubes militares com o candidato da extrema-direita, Flávio Bolsonaro, sem que o nome seja mencionado. [2]
Em contraposição a este patriotismo de fachada, a candidatura de Lula em 2026 contrapõe-se pela defesa de um nacionalismo de tintas fracas. Na verdade, pauta-se por uma política de barganha com o imperialismo norte-americano que necessita, para isso, afirmar a soberania do país.
Existe uma ameaça fascista?
O Clube Militar (Exército) esteve envolvido antes na defesa do bolsonarismo, como foi o caso do protesto contra a prisão do deputado federal Daniel Silveira. Em resposta ao Clube, Aloizio Mercadante alegou que “é dever de todos os democratas a construção de uma ampla frente democrática para combater o fascismo e fazer uma defesa incondicional do estado de direito”. [3]
A posição do então senador petista constitui a linha política do Partido dos Trabalhadores e de grande parte dos grupos e tendências do movimento sindical e do movimento social até o momento atual. Uma frente desse tipo, porém, merece uma recusa frontal, pois subordina os trabalhadores à burguesia. A defesa do estado de direito nada mais é, por outro lado, que a defesa da democracia burguesa de corte liberal.
Vale acrescentar que o fascismo é uma ditadura aberta e indireta da burguesia que surgiu historicamente na Europa dos anos 1920-30, quando o Estado burguês mostrou sua incapacidade de enfrentar o movimento revolucionário do proletariado. [4]
Não lidamos, no Brasil, com uma situação semelhante: o Estado burguês não está em crise e o proletariado encontra-se desorganizado, sem qualquer força política. Ninguém pode negar, contudo, o potencial fascista existente nas bases do bolsonarismo, como são as milícias e os Clubes de Caça e de Tiro; mas daí a apontar um movimento político fascista vai, inclusive, contra a história política recente, como se pode verificar nos eventos de 8 de janeiro de 2023. Na verdade, quem comandou a tentativa golpista naquele momento foram as forças do Exército em coordenação com a políciamilitar do Distrito Federal. A massa bolsonarista, que vandalizou a Praça dos Três Poderes, foi a bucha do canhão que falhou no tiro fatal.
Lula versus Bolsonaro: as razões da polarização política
Em outubro de 2013, ao receber o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal do ABC, ladeado por Dilma Roussef, Lula declarou, em certa passagem de seu discurso, que os jovens formados nas novas universidades não estavam conseguindo encontrar os empregos dos sonhos deles. Esses jovens, filhos e netos da geração que fizeram o sindicalismo com ele nos anos 1970, estavam frustrados e revoltados com a impossibilidade de se tornarem a “nova classe média”. Além da falta de crescimento da economia com “empregos de qualidade”, o tipo de formação universitária genérica oferecida nessa expansão do ensino superior trazia uma dificuldade adicional em termos de emprego [5]. O sonho acabaria junto com essa formação de “meia colher” e iria representar, do ponto de vista eleitoral, no deslocamento do voto dos trabalhadores para a direita. A colheita veio depois, quando a extrema-direita liderada pelo capitão Jair Bolsonaro entrou na cena política, em 2016. O período recessivo foi o pano de fundo do impeachment de Dilma Rousseff e contribuiu para o fortalecimento da candidatura de Bolsonaro, que acabaria por conduzi-lo à presidência da república em 2018.
O retorno de Lula em 2022 contou com a persistência da recessão, desta vez provocada pela Covid-19, bem como seus efeitos na grande sobremortalidade decorrente da restrição à vacinação e de suporte hospitalar impostas por Bolsonaro.
O que explica então a polarização política ao longo de todo o período de 2016 a 2026, e sobretudo na evidência de um empate eleitoral entre Lula e Flávio Bolsonaro no atual pleito eleitoral?
Cabe, evidentemente uma análise aprofundada do fenômeno, mas podemos apontar duas possibilidades. De um lado, há um processo que arrasta a economia capitalista no Brasil para baixo, com crescimentos reduzidos nos setores de maior emprego, como são os de serviços e da indústria. Por outro lado, o baixo desemprego geral registrado nas avaliações econômicas oculta o chamado “empreendedorismo” – do qual a adesão ao uberismo é a melhor ilustração — que, além de um mecanismo de sobrevivência e, portanto, de uma resposta à falta de oportunidades de trabalho melhor remuneradas, passa a significar uma nova identidade social: a de uma pequena-burguesia precarizada que raciocina em termos do "pequeno patrão" de seu igualmente pequeno negócio.
Se para a massa dos trabalhadores o horizonte social é o dessa pequena burguesia precarizada, para o setor mais organizado do ponto de vista sindical o que representa o governo Lula?
Pouco antes de tomar posse, Lula convocou as centrais sindicais e a intersindical para discutir seu papel no futuro governo que iniciaria em janeiro de 2022. Qual seria: o de ajudá-lo a reconstruir o Brasil, quer dizer, o Estado brasileiro das investidas destrutivas do governo de Jair Bolsonaro. Eis de volta o Ministério do Trabalho e Emprego no qual se reacomodaram as centrais sindicais; estas, contudo, não se voltaram para mobilizar os trabalhadores por um aumento efetivo do salário mínimo, capaz de aumentar o piso salarial das diferentes categorias de trabalhadores. Antes pelo contrário, ou seja, deixaram os sindicatos de suas bases lidar com a rotatividade do emprego impulsionada nas grandes empresas pelos planos de demissão voluntária. Seu papel foi o de desmobilizar lutas, de assegurar a “paz social” para os negócios da burguesia funcionarem bem, quer dizer, favorecer o aumento da exploração dos trabalhadores. [6]
Esse governo negativo para os trabalhadores em termos de seus interesses específicos tem sua razão de ser. Ao reconhecer a polaridade política e a estreita margem de votos obtida na sua vitória eleitoral de 2022, Lula conduziu o PT e as centrais sindicais e atraiu os movimentos sociais para compor um novo governo à direita. Neste, a participação do PT e dessas entidades nos ministérios da diversidade empresta as róseas tintas que mal conseguem velar o fundo verde-marrom do governo de centro-direita.
O reverso dessa situação é o aumento da violência social e, principalmente, a transformação do tráfico de drogas em empreendimento capitalista de proporções nacionais. Esse é o ponto central da campanha de Flávio Bolsonaro, com o programa Brasil sem Medo. A extrema-direita dispõe, assim, de um projeto convergente com a política de Trump para a América Latina. O aspecto principal do programa consiste em declarar as facções do tráfico de drogas (Comando Vermelho, PCC etc.) em organizações terroristas, permitindo deste modo dar forma à uma Muralha Brasileira, qual seja, uma política de construção de bases militares, com apoio de equipamento bélico e logístico dos EUA. Tal programa não atrairia o interesse da maioria da população que, de norte a sul, sofre a opressão do tráfico de drogas e de sua contrapartida nas chamadas “milícias”, não fosse acompanhado por medidas como o endurecimento das leis penais, como a redução da maioridade penal, e confronto direto (guerra) ao crime organizado (terrorismo).
Como devemos nos posicionar?
Os comunistas, desde o Manifesto de 1848, sempre negaram a participação no poder executivo no estado burguês como uma condição de sua independência política, premissa da revolução proletária. Abriu-se a possibilidade de participação quando, em decorrência de uma situação revolucionária, surgissem governos operários e camponeses; considerando-os, porém, governos de transição para a queda na reação ou para avançar a revolução.
Afirmou-se, por outro lado, ao longo de quase dois séculos, a necessidade de utilizar a democracia burguesa (o parlamento) como um instrumento de oposição sistemática à ordem burguesa, mediante agitação e propaganda sustentada na mobilização nos locais de trabalho, nas ruas e outros espaços de atividade das massas proletárias. Nos períodos eleitorais, a votação obtida sempre foi utilizada para avaliar a força política do partido operário e, simultaneamente, o alcance de sua influência sobre as amplas massas de trabalhadores. Nesse sentido vale destacar a posição do coletivo Cem Flores no texto "Uma posição comunista sobre as eleições burguesas de 2026 no Brasil", em defesa da mobilização dos operários da construção civil da região metropolitana de Belém, "em plena eleição burguesa"; expressão da contradição fundamental de nossa sociedade, a que opõe o trabalho ao capital, as greves constituem "o caminho central pelo qual o proletariado e as classes exploradas podem revidar às ofensivas de todos os seus inimigos de classe, internos e externos."
Defendemos, nas eleições no Brasil deste ano, o voto nulo para os cargos do poder executivo (presidência da república e governos estaduais) por se trataram de governos de direita, diante dos quais o proletariado encontra-se completamente desorganizado, servindo apenas de massa de manobra de tal ou qual fração da burguesia. O PT nada mais representa do que uma história pregressa de lutas para emprestar suas cores vermelhas esmaecidas ao assim chamado “centrão”, no qual desempenha o papel de uma força legitimadora.
Nosso único compromisso nas eleições é o de estimular os companheiros nos locais de trabalho e outros espaços de mobilização a votar em candidaturas para parlamento (Câmara dos Deputados e Senado, Assembleias legislativas) que expressem a defesa de interesses específicos dos trabalhadores em oposição aos interesses da burguesia.
02/10/2026
Gabriel Lima e João Ferreira
Notas
[1] Na última "Super Quarta" de setembro (16/09/2026), o FED (Banco Central dos Estados Unidos) elevou os juros americanos em 0,25%, isto é, de 3,75% para 4,00%, a primeira alta desde 2023.
[4] Para aprofundar esse questão ver “Classes e Estado. Ditadura e democracia” (1967), disponível em https://centrovictormeyer.org.br//wp-content/uploads/2014/01/Classes-e-Estado.pdf
[5] https://oglobo.globo.com/politica/lula-sugere-que-pt-continuara-na-presidencia-ate-2022-10969759
[6] A única medida adotada pelo governo em favor dos trabalhadores foi a de aumentar a faixa de isenção para o pagamento do imposto de renda para quem recebe até R$ 5.000,00. E para lidar com o endividamento crescente das famílias de trabalhadores, na véspera da votação, em 4 de outubro, a Medida Provisória 1394/2026 acaba com o cassino das Bets e, com o Desenrola Brasil 3.0, alivia o elevadíssimo grau de endividamento das famílias, apontando para a provável correlação entre apostas e comprometimento da renda. O caráter eleitoral da medida, considerada um "trunfo" de Lula, fica evidente quando se sabe que encontrará, para ser aprovada, forte oposição do Congresso.

