A atualidade do pensamento de Lenin em questão
A classe operária é revolucionária ou nada.
Marx, 1865
O coletivo Cem Flores (CF) divulgou, recentemente, em seu blog, o artigo Lenin: Marxismo e reformismo (1913). A divulgação desse artigo deve-se, provavelmente, ao fato de que, em termos gerais, a conjuntura mundial atual parece guardar uma forte correlação com o período antecedente ao desencadeamento da primeira guerra mundial. Entretanto, a apresentação do artigo por CF deixa de lado uma análise do contexto histórico, a qual precisa necessariamente partir da atualidade. A apropriação da crítica ao reformismo realizada por Lenin no Pravda, em 12 de setembro de 1913, nos termos escritos por CF no texto acima citado, descontextualizada à luz do tempo presente, conduz a equívocos e a uma idealização da teoria revolucionária.
A propósito de um debate entre companheiros que compartilham a mesma visão geral de mundo e da sua transformação revolucionária, vamos direto ao ponto.
1. A contradição capital-trabalho continua a ser o nó górdio da sociedade burguesa, fundada no capitalismo; porém, a forma de sua expressão altera-se ao longo da luta de classes. São as consequências de tais mudanças nas relações de força entre burguesia e proletariado que precisam ser apreciadas objetivamente. Significa referir-se à “reestruturação empresarial” e às reformas trabalhistas, parciais ou amplas, a depender da natureza da ofensiva da burguesia, da resistência dos trabalhadores, assim como ao papel do Estado burguês nesse processo. [1]
2. Se nos limitarmos a perceber a contradição capital-trabalho no âmbito das empresas, ou na perspectiva sindicalista da manutenção do emprego, prisioneiros dessa lógica jamais conseguiremos encontrar o caminho da luta de classes. O caminho, sabemos muito bem, não é uma criação da vanguarda comunista, mas do desenvolvimento das contradições do capitalismo. Para entender a possibilidade de saída deste “quarto fechado”, devemos admitir que as contradições do capitalismo continuam a se desenvolver [2], arrancando, necessariamente, a sociedade burguesa da aparente tranquilidade social, de tempos em tempos, com recessões econômicas e revoltas dos trabalhadores; mais ainda, as contradições são sobredeterminadas pelos conflitos interimperialistas, cujas consequências são vivenciadas pelos trabalhadores como inflação, rebaixamento real dos salários e cortes nos orçamentos sociais em prol do aumento dos gastos militares. A ação dos comunistas depende da sua clareza acerca dessas determinações, do conflito de classes em marcha e do nível de consciência do operariado, com o qual precisa estar firmemente enraizado.
3. Destaquemos aqui o aspecto principal da situação do proletariado industrial: enquanto não rompem com a divisão entre trabalhadores permanentes e temporários imposta pela chamada terceirização (uma das características da “reestruturação industrial”) e lutem para além dos limites das fábricas, os operários mal conseguem preservar a sua força de trabalho e se tornam cativos dos seus patrões. Ademais, nos setores mais monopolizados da economia capitalista, a consciência individual dos operários é prisioneira do horizonte mental do pequeno patronato e do trabalhador autônomo precário. É sob este ângulo que se precisa definir o entendimento do papel desempenhado pelos sindicatos e partidos desde os anos 1990: tornaram-se progressivamente um instrumento da ordem do capital em cada país, voltada para a negociação do emprego por empresa [3].
4. Percebemos, então, que o domínio do que, com muito esforço, podemos chamar de reformismo nos sindicatos e nos partidos, não passa na verdade de um simulacro de reformismo, de um fantoche da burguesia. Apegados à defesa dos empregos, via de regra negociados para excluir os operários de baixa produtividade mediante “programas de demissão voluntária”, avizinham-se politicamente da extrema-direita devido a seu nacionalismo xenófobo, para o qual tende a própria massa dos trabalhadores enquanto não está organizada coletivamente. O proletariado, assim, afunda-se na situação de exploração e opressão de classe.
5. Entendemos que o problema fundamental de nossa época — mergulhada atualmente na depressão econômica, nas guerras por procuração dos EUA desenvolvidas pela Ucrânia e Israel, e na crise ambiental — define-se pela ausência do proletariado como força antagônica ao capitalismo. Todo um processo histórico mundial aconteceu para chegar a este desfecho, uma vez que o movimento operário, cuja força e vigor revolucionários ainda se manifestou até o começo dos anos 1920, entrou em crise e praticamente desapareceu sob o tacão de ferro do nazismo na Europa e do populismo de Roosevelt nas décadas de 1930 e 1940. O movimento que reemergiu, no pós-guerra, assumiu a forma socialdemocrata de negociações coletivas e avanços na legislação social conduzidas por centrais e uniões sindicais e institucionalizadas politicamente em governos de coalizão de centro-direita, caracterizando um dos traços fundamentais do assim chamado Estado de Bem-Estar Social. [4] A crise desse Estado, suas crescentes limitações e esvaziamento de provisões sociais universais, sob o domínio dos bancos centrais, acompanhadas das crescentes limitações à participação na democracia burguesa, começam a tomar forma na segunda metade dos anos 70, para consolidar-se, na década seguinte, a partir de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, sob o denominado Estado neoliberal. O reformismo acompanha essa crise e sobrevive como um simulacro do passado, pautando-se na defesa do emprego e dos benefícios negociados nos contratos por empresas.
6. As lutas isoladas não constituem uma tendência inevitável, a exemplo da greve dos metalúrgicos de Cádiz, na Espanha, em 2023. O caso da greve dos operários das três grandes empresas automobilísticas nos EUA em 2024, quando o rebaixamento dos salários e a divisão dentre a direção sindical permitiu a mobilização das massas para a conquista de reivindicações imediatas, aponta a possibilidade da unificação da luta. Nestas lutas é que se torna viável enfrentar a "ofensiva burguesa”, bem como o reformismo da direção sindical e partidária dos trabalhadores.
A unificação das lutas, contudo, somente prepara os operários para assumir formas mais avançadas de confronto com a burguesia na medida em que, frente aos interesses da burguesia, são dirigidas de modo independente do ponto de vista político,
Agora podemos manifestar o sentido da epígrafe dos nossos apontamentos, extraído da conclusão de uma carta escrita por Marx a Johann Baptist von Schweitzer, em 13 de fevereiro de 1865. Reproduzimos aqui um trecho dessa correspondência voltada para analisar a posição do partido operário com o governo prussiano, tendo como centro a “intervenção socialista” do governo prussiano da época . [5]
... o apoio do governo monárquico prussiano às sociedades cooperativas – e qualquer um que conheça as condições prussianas de antemão conhece também as suas necessárias dimensões anãs – é zero como medida econômica, enquanto ao mesmo tempo que o sistema de tutela é estendido, uma parte da classe trabalhadora é subornada e o movimento é emasculado. Assim como o partido burguês na Prússia se envergonha da causa de sua miséria atual, por ter acreditado seriamente que, com a "Nova Era" , o governo tinha caído no seu colo pela graça do Príncipe Regente, do mesmo modo o partido dos operários ficará ainda mais envergonhado se imaginar, através da era Bismarck ou por qualquer outra era prussiana, que as maçãs douradas cairão em sua boca a partir da graça do rei. Que a decepção com a infeliz ilusão de Lassalle de uma intervenção socialista por um governo prussiano virá, é inquestionável. A lógica das coisas vai falar. Mas a honra do partido dos trabalhadores aumenta se ele rejeita tais ilusões, mesmo antes de seu caráter oco ter explodido com a experiência. A classe operária é revolucionária ou nada.
7. Uma ruptura da ordem burguesa ainda não é perceptível, sobretudo porque o operariado continua no pano de fundo da cena política. Mas as contradições entre capital e trabalho “continuam a se desenvolver”, impulsionadas e sobredeterminadas pelo tempo curto das pressões da geopolítica.
João Ferreira
13 de setembro de 2026
Notas
[1] Para maior informação ver CLARKE, Simon. Crise do fordismo ou crise da social-democracia? Lua Nova, São Paulo, n.24, p.117-150, 1991.
[2] Robert Linhart acompanhou Miguel Arraes na volta do exílio da Argélia em 1980, interessado em conhecer a experiência dos camponeses em Pernambuco antes do golpe de 1964. No interior do Estado, conheceu João da Silva, um dos fundadores da Liga dos Camponeses do Engenho da Galileia. Em conversa com Linhart, esse velho líder perguntou: “Você acha que o mundo chegou a um ponto estável ou que as contradições continuarão a se desenvolver?” Registrou a experiência na obra O açúcar e a fome, publicado pela Paz e Terra em 1981.
[3] E os supostos benefícios como a chamada Participação nos Lucros e Resultados (PLR), um salário variável em troca da intensificação do trabalho, a exigir a inscrição nos “programas de demissão voluntária” para eliminar os trabalhadores considerados improdutivos pelas empresas.
[4] Para uma compreensão da história da organização internacional dos trabalhadores ver Ernesto Martins. “”Proletariado brasileiro e revolução mundial, parte IV de Caminho e caráter da revolução brasileira (1970). Disponível em https://centrovictormeyer.org.br/wp-content/uploads/2025/12/Caminho-e-carater_completo_Erico-Sachs.pdf
[5] Trata-se dos primórdios da seguridade social na Alemanha. Citação extraída de Marx-Engels Werke (MEW), Band 16, p. 445. Disponível em https://marx-wirklich-studieren.net/marx-engels-werke-als-pdf-zum-download/


